XXXII Encontro dos Médicos Veterinários e Zootecnistas dos Vales do Mucuri, Jequitinhonha e Rio Doce

Dietas de alto concentrado para terminação de bovinos de corte

Fabiano Alvim Barbosa; Venício José Andrade; Rafahel Carvalho Souza, Décio Souza Graça, Pablo Fabrício Bruno Pinto.
Professores do Departamento de Zootecnia, Escola de Veterinária – UFMG
Professor do Curso de Medicina Veterinária - FEAD Minas e UNIPAC
Aluno do Programa de Pós-Graduação – Zootecnia – EV-UFMG

1. Introdução

Atualmente, a pecuária de corte passa por um processo nítido de incorporação de tecnologias, em áreas produtoras de maior importância, com reflexo positivo sobre a produtividade. Observa-se nessas áreas uma mudança de atitude de parcela significativa de pecuaristas, movidos pela necessidade de obter maior eficiência produtiva, após a estabilização da moeda, que desestimulou a produção com fins especulativos e a compra e venda de gado como forma de obtenção dos lucros anteriormente proporcionados pela elevação de preços.

De forma simplificada, podem-se agrupar as propriedades em dois subsistemas de produção: um subsistema tradicional (extensivo) e um subsistema melhorado (semi-intensivo ou intensivo).

No subsistema tradicional, predomina a pecuária extensiva, dependente basicamente do suprimento de nutrientes pelos pastos, restringindo-se à suplementação alimentar ao fornecimento de sal comum e/ou suplemento mineral aos animais. A suplementação na época da seca é feita somente com suplemento ureado (20 a 30% de uréia na mistura mineral) ou um proteinado de baixo consumo. Nesse subsistema, não há investimento em melhoria da qualidade das pastagens, que se encontram em estágios variados de degradação, a produtividade anual é abaixo de 120 kg de peso vivo ou menor que 4 arrobas por hectare ano. As taxas de desmama, normalmente, são abaixo de 60%, com a idade de abate dos machos e a idade ao primeiro parto da matriz acima dos 42 meses de idade. Nesse subsistema o ganho médio de peso diário dos animais durante as águas situa-se entre 0,4 e 0,5 kg/cabeça, e na época da seca, os animais mantêm peso, ou podem chegar a perder uma arroba no período.

No subsistema melhorado, é crescente a preocupação com a manutenção e melhoria da qualidade das pastagens, verificando-se maior emprego de fertilizantes, utilização de rotação e/ou irrigação de pastagens e implantação de culturas forrageiras anuais de inverno e verão. A suplementação mineral durante a época das águas é rotina, e além desta é feita a suplementação nutricional estratégica de diferentes formas:

1) Rações e/ou suplementos protéico minerais para creep-feeding;
    2) O uso de suplementos proteinados – médio e alto consumo, nas diferentes época do ano (transição água-seca, seca, transição seca-águas);
    3) Rações concentradas a pasto (semiconfinamento);
    4) Suplementação de inverno e/ou verão com forrageiras e/ou rações concentradas;
    5) Confinamento.

Estas estratégias possibilitam maior desempenho animal com melhora na eficiência alimentar e, consequentemente, a redução da idade de abate e da idade ao primeiro parto. A produtividade anual é acima de 180 kg de peso vivo ou maior que 6 arrobas por hectare ano. As taxas de desmama, normalmente, são acima de 75%, com a idade de abate dos machos e a idade ao primeiro parto da matriz variando de 24 a 36 meses de idade. Nesse subsistema o ganho médio de peso diário dos animais durante as águas situa-se entre 0,6 e 0,8 kg/cabeça, e na época da seca, os animais podem ganhar de 0,5 a 1,0 kg/dia a pasto, ou ainda, acima de 1,0 kg por dia em sistema de confinamento.

As dietas para bovinos em confinamento nos Estados Unidos costumam ter cerca de 80% de concentrado ou grãos (na matéria seca), pois o custo por megacaloria de energia é menor quando comparada ao volumoso. Além disso, a taxa de eficiência de crescimento de animais é melhorada nessa dieta que contem maior concentração de energia do que nas dietas de maior proporção de volumoso.

Nesse contexto o uso de dietas de maior proporção de concentrado vem sendo usada nos últimos anos, principalmente, em confinamentos no Brasil, para obter maior ganho de peso e menor custo unitário do kg produzido. Portanto, o objetivo dessa revisão é demonstrar a finalidade de utilização dessas dietas nos aspectos produtivos e econômicos durante a fase de terminação dos bovinos de corte.

2. Aspectos fisiológicos no metabolismo de carboidratos de bovinos de corte submetidos a dietas de alto concentrado

Os ruminantes alimentam-se basicamente de alimentos fibrosos, o que, evolutivamente, os levaram a desenvolverem grande capacidade ingestiva acompanhada por simbiose com micro-organismo que fazem digestão da fibra celulolítica, obtendo-se desta forma, a principal fonte de energia para seu crescimento, produção e reprodução.

O estômago dos ruminantes tem quatro compartimentos: rúmen, retículo, omaso e abomaso. O rúmen contém complexa mistura de partículas alimentares e de microrganismos: bactérias, protozoários ciliados e flagelados, fungos, micoplasmas e bacteriófagos, os quais estabelecem entre si diversas interações. As bactérias e os protozoários ciliados representam, na maior parte das condições, os componentes mais importantes da população microbiana.

Para que cresçam com eficiência, os micro-organismos ruminais necessitam de fontes de energia, nitrogênio e aminoácidos disponíveis ao mesmo tempo no rúmen. À medida que aumenta a disponibilidade dos carboidratos, mais nitrogênio e proteína podem ser utilizados para a síntese de proteína microbiana. Para que se consiga a sincronia perfeita entre as disponibilidades das fontes de carboidratos e proteínas, é preciso fornecer aos animais quantidades corretas desses nutrientes.

Após ampla fermentação na porção rúmen-retículo, o alimento passa para o omaso. As funções do omaso são a de seleção de grandes partículas de alimento e absorção de água e ácidos. Posteriormente, a ingesta passa para o abomaso ou “estômago verdadeiro” onde ocorrem as secreções gástricas de ácido clorídrico e pepsina, semelhante aos estômagos de não ruminantes (Church, 1993).

A fermentação ruminal é resultado de atividades físicas e microbiológicas, que convertem os componentes da ração em produtos químicos ou microbianos. Os principais produtos finais da fermentação microbiana são os ácidos graxos voláteis (AGV), proteína microbiana e vitaminas do grupo B. Os três principais AGV produzidos são o acetato, propionato e butirato. O propionato é transportado para o fígado e convertido em glicose. Já o acetato é usado principalmente como substrato para a produção de gordura animal (Church, 1993). Em dietas à base de forragem, a proporção de AGV seria de aproximadamente 65-70% de acetato, 15-25% de propionato e 5-10% de butirato (Van Soest, 1994). O emprego de dietas ricas em carboidratos rapidamente fermentáveis (amido) aumenta a proporção de propionato, e resulta em proporção de aproximadamente de 50-60%acetato, 35-45% de propionato e de 5-10% de butirato. Esta mudança para maior proporção de propionato é extremamente importante para as características da carcaça. Bines e Hard (1984) verificaram que o aumento da produção de propionato resultou em maior secreção de insulina. A insulina aumenta a síntese de gordura e proteína e ao mesmo tempo inibe a degradação de gordura e proteína em nível tecidual. O aumento da síntese de gordura e proteína é devido a melhor taxa de captação de nutrientes pelos tecidos. É por este motivo que animais em confinamentos são alimentados com dietas ricas em grãos, já que maior produção de propionato resulta em ganho de peso mais eficiente e maior marmoreio, uma vez que há menor perda de energia da ração sob forma de CO2 e CH4. Além disso, dietas à base de grãos resultam em órgãos viscerais com menor peso quando comparadas com as forragens, deixando mais energia para ganho de tecidos (Fluhart, 2009).

Todavia, a ingestão de dietas ricas em carboidratos rapidamente fermentáveis no rúmen pode resultar em acúmulo excessivo de AGV no fluido ruminal, desencadeando um quadro de acidose (Barker et al., 1995). Assim, o estímulo da capacidade de clearance de AGV pela parede do rúmen por manipulação dietética pode ser uma estratégia alimentar plausível em animais manejados em confinamento, já que pode propiciar alta absorção de energia sem induzir acúmulo excessivo de AGV no fluido ruminal.

Em comparação com animais alimentados com ração à base de grãos, o tamanho do rúmen limita a quantidade de energia que pode ser consumida com as dietas à base de forragens, e a ingestão de energia digestível diminui com o aumento da maturidade da forragem. A digestão ruminal da fibra é uma função da taxa de digestão da forragem e a taxa de passagem das partículas da forragem pelo rúmen.

A fibra necessária em dietas de confinamentos exerce um efeito físico ou mecânico , mais do que nutritivo, entretanto o valor alimentício desse recurso é muito baixo, principalmente pela baixa degradação ruminal dessa fração em dietas de alta proporção de concentrado energético. O principal objetivo da fibra é promover a ruminação, a salivação e, consequentemente, o tamponamento do rúmen, reduzindo assim, o risco de acidose e a queda de taxa de consumo, sem afetar o resultado produtivo.

Do ponto de vista prático com as forragens não processadas, tamanho grande de partícula da forragem madura reduz a energia disponível para o animal. Deve-se lembrar que os micro-organismos precisam se ligar à forragem para que a digestão ocorra. A digestão normalmente ocorre da parte interna da forragem para as camadas externas. As limitações da velocidade em que isto ocorre incluem as propriedades físicas e químicas da forragem, o nível de umidade da forragem, tempo para penetração na camada da cutícula e ceras, e a extensão da lignificação (Vargas e Kolver, 1997).

O alimento não digerido é degradado através do processo de ruminação e remastigação até que esteja digerido a pequenas partículas para passar pelo orifício entre retículo e omaso. A maioria das partículas que deixam o rúmen é menor do que 1 mm, ainda que partículas de até 5 cm possam deixar o rúmen (Welch, 1986). Assim, reduzir o tamanho de partícula dos volumosos resultará em menor dispêndio energético relacionado à ruminação e remastigação.

3. Aspectos fisiológicos no metabolismo de proteínas de bovinos de corte submetidos a dietas de alto concentrado

O nitrogênio dietético pode ser classificado em dois grupos: aquele proveniente das proteínas e o de origem não protéica. A proteína alimentar é dividida em duas frações, considerando a sua degradabilidade ruminal. A fração degradável no rúmen (PDR), inocule às proteases e peptidases microbianas e a que passa diretamente ao intestino delgado para sofrer a digestão intestinal (PNDR) (NRC, 1985). Consequentemente, a proteína dietética disponível para a absorção no intestino é resultado do somatório da proteína microbiana e da proteína bypass (Ferguson e Chalupa, 1989).

Dessa forma, o objetivo da nutrição protéica dos ruminantes é disponibilizar ao animal quantidade adequada de PDR, para que ocorra eficiência dos processos digestivos e, consequentemente, a otimização do desempenho animal com a mínima quantidade de proteína bruta dietética. A maximização da eficiência do uso da proteína bruta dietética requer a seleção de suplementos proteícos e de nitrogênio não proteíco (NNP), que possam disponibilizar quantidades adequadas de PDR que satisfaçam, mas não excedam as exigências de nitrogênio necessárias para a máxima síntese de proteína bruta microbiana (NRC, 2001).

A degradação da proteína ruminal inicia-se com a solubilização das proteínas da dieta no fluido ruminal e subsequente ataque pelas enzimas associadas às bactérias e protozoários do rúmen. Esta proteólise (degradação de proteína) resulta em grandes moléculas que são solúveis na fase fluida dentro do rúmen. Estas moléculas de polipeptídeos sofrem rápida adsorção pelas bactérias e são progressivamente degradas na presença de água para peptídeos de peso molecular menor e alguns aminoácidos livres. Os peptídeos e aminoácidos são usados, então transportados para dentro das células bacterianas para nova degradação para aminoácidos livres. Os aminoácidos são usados para síntese protéica pelas bactérias, desaminados para amônia ou removidos da célula (Bach, 2005). Os esqueletos de carbono remanescentes da desaminação dos aminoácidos pelas bactérias do rúmen são usados para sintetizar AGV, que são utilizados pelo animal como fonte de energia. A principal forma de nitrogênio (N) utilizada pelos micro-organismos do rúmen é a amônia (NH3) liberada pela degradação da proteina bruta da dieta (Van Soest, 1994). Para maximizar a eficiêcia da fermentação ruminal é necessário concentração mínima de amônia para permitir o crescimento dos micro-organismos que é em torno de 5 mg/100 ml de NH3 no fluido ruminal (Satter e Slyter, 1974).

Quando em excesso, o nitrogênio amoniacal pode ser removido por difusão através da parede do rúmen ou do fluxo de fluido para o trato posterior, porém, esta segunda via é quantitativamente menos importante. Após absorvido, via corrente sanguínea, a amônia em excesso chega ao fígado no qual é metabolizada a ureia, com gasto energético para o animal. Essa ureia oriunda do metabolismo hepático, por sua vez pode ser excretada via urina ou reciclada via saliva (Church, 1993).

A quantidade de amônia reciclada é relativamente independente do N dietético, uma vez que, o pool corporal de ureia está sobre controle fisiológico homeostático, que tende a ser constante. Desta forma, o que pode variar seria a quantidade relativa ou a eficiência de reciclagem do nitrogênio. Assim, em condições de baixo plano nutricional protéico, as perdas na urina seriam relativamente menores, aumentando a proporção reciclada de N, situação inversa em nutrição protéica mais elevada (Van Soest, 1994).

Esta reciclagem do nitrogênio permite que as bactérias ruminais se adaptem a uma variedade de ingredientes da dieta, variando desde resíduos de culturas, pobres em energia e proteína, até grãos de cereais, ricos em energia e pobre em proteína. A rápida degradação do amido e a lenta degradação da proteína com o uso de dietas ricas em grãos resultam em baixas concentrações ruminais de amônia, enquanto que a rápida degradação da proteína e a lenta digestão do carboidrato estrutural das forragens resultam em concentrações relativamente maiores de amônia no rúmen, dependendo da concentração de proteína da forragem. Deficiência de amônia ruminal aumenta a reciclagem de N no rúmen e excesso aumenta a absorção a partir do rúmen (Van Soest, 1994).

Em relação ao manejo alimentar de animais em confinamento e metabolismo proteíco, a preocupação mais importante, em termos práticos, é disponibilizar amônia suficiente no rúmen para maximizar o crescimento microbiano sem desperdiçar dinheiro com proteína em excesso. O grão de milho possui proteína bypass moderada e, como tal, combinações de milho com farelo de soja e ureia têm funcionado bem quando fornecidas aos animais. Em função do preço da soja, a utilização de subprodutos de origem protéica pode torna-se uma alternativa viável economicamente, desde que a concentração de amônia no rúmen disponível para os animais seja suficiente para atender o máximo crescimento microbiano e, consequentemente, a produção animal.

4. Aspectos fisiológicos da nutrição e consumo alimentar em bovinos alimentados com dietas de alto concentrado

4.1 Fatores fisiológicos relacionados à nutrição

Estudos indicam que o uso do grão de milho inteiro nas dietas altamente concentradas, devido ao seu tamanho e densidades de partículas, podendo ser utilizado sem grandes perdas de digestibilidade de energia metabolizável para ruminantes em confinamento. Ramirez et al. (1985) concluíram que a dieta a base de milho, grão inteiro, teve uma menor taxa de passagem, ou seja, maior tempo de retenção do grão no rúmen e uma maior taxa de turnover quando comparada a dietas a base de milho floculado cozido e milho inteiro cozido (vapor).

Segundo Secrist et al. (1996), o pH ruminal nos animais alimentados com dietas de milho grão inteiro variou pouco em relação ao tempo quando comparado com o pH ruminal de novilhos alimentados com milho finamente ou grosseiramente moídos. Os novilhos alimentados com milho inteiro o pH ruminal consistentemente era mantido acima de 6,0 enquanto o pH de novilhos alimentados com milho finamente ou grosseiramente moídos caiu drasticamente durante o período de amostragem de 12 horas. Essa maior flutuação do pH foi encontrada com os animais tratados com diferentes tipos de moagem do milho comparado com os que receberam grãos inteiros, em função da maior taxa de fermentação e menor entrada de saliva durante a alimentação e ruminação. Segundo Owens et al. (1997) o grão inteiro promove uma maior salivação (maior efeito da fibra efetiva) e maior pH ruminal, através do aumento na mastigação esperando-se uma menor incidência de acidose subclínica.

O milho finamente moído, quando comparado com milho inteiro, produziu menor pH ruminal, maior concentração de lactato e de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), no qual a maior proporção é composta de propionato. Isto implica que tanto a taxa quanto a extensão da fermentação ruminal provavelmente aumentaram quando o tamanho das partículas foi reduzido. Para o animal, a extensão total da digestão do amido, não simplesmente a taxa de fermentação ruminal, está mais relacionada à produção. Taxa de fermentação excessiva pode adversamente impactar a eficiência, pois flutuações diurnas no ambiente ruminal e no suprimento de nutrientes podem ser prejudiciais para a saúde do rúmen e eficiência metabólica (Secrist et al., 1996b).

Várias pesquisas encontraram respostas similares para ganho de peso, quando compararam dietas a base de milho grão inteiro com milho moído, esmagado ou em flocos (Pinto, 2011). Todavia, em alguns casos têm-se detectado melhora na conversão alimentar (Secrist et al., 1996) e em outros maior ganho de peso e consumo de matéria seca em dietas oferecidas ad libitum (Guthrie et al., 1992).

Em uma análise conjunta de 605 ensaios de alimentação em confinamento que incluiu a informação de 22.834 animais, Owens et al. (1997) concluíram que o potencial do grão inteiro de milho para ganho de peso é equivalente ao milho esmagado a seco, ou úmido e inclusive superior a silagem de grão úmido, com alta eficiência de conversão. Neste mesmo trabalho, os autores também concluíram que a eficiência energética do grão de milho inteiro (estimada em energia metabolizável) é superior a do grão de milho esmagado, pois as dietas de confinamento que incluem grão de milho inteiro têm menor conteúdo de fibras que dietas à base de grãos processados. Owens et al. (1997) consideram também que a digestão do grão de milho inteiro não se altera e promove maior passagem de partículas de amido sem fermentar para absorção intestinal, consequentemente, melhorando a eficiência da utilização da energia.

A idade do animal também pode estar envolvida na melhor eficiência alimentar dos animais tratados com milho inteiro devido a sua melhor mastigação, sendo que os animais jovens comem mais lentamente quando comparado aos mais velhos. Uma mastigação menos eficiente (extensiva) do grão inteiro pode diminuir a digestibilidade e a utilização de energia conforme observado em vacas, machos mais velhos, ou em animais consumindo mais rapidamente em função de tempo para consumo limitado (Secrist et al., 1996b).

4.2 Fatores fisiológicos relacionados ao consumo alimentar

O consumo voluntário, expressa a quantidade de alimento ingerido por um animal, quando este é oferecido ad libitum (Van Soest, 1994). De acordo com Forbes (2007), ingestão voluntária dos alimentos é a quantidade ingerida por um animal ou grupo de animais durante um determinado período de tempo durante o qual, têm livre acesso aos alimentos. Geralmente é apresentado na unidade de kg de MS/animal/dia, ou ainda em uma medida comparativa relativa ao seu peso vivo (%) ou ao peso vivo metabólico (g/kg P0,75). A ingestão de alimento é de importância fundamental na alimentação animal, porque dela vai depender a quantidade total de nutrientes que o animal recebe para crescimento, saúde e produção.

Segundo Forbes (2003) local primário responsável pelo controle integrado da ingestão de alimento e equilíbrio energético no corpo é o sistema nervoso central. No hipotálamo estão localizados o centro da saciedade (região ventral-mediana) e o centro da fome (região lateral). O consumo ideal de nutrientes está relacionado para que, na ausência de outras restrições (ambientais, sociais, sanitárias, etc.), possa permitir ao animal atingir o seu potencial para crescer, engordar, produzir leite, etc; e a taxa máxima de produção só poderá ser alcançada com animais alimentados ad libitum (Forbes, 2003).

Mertens (1994) propôs que o consumo voluntário seria regulado por três mecanismos: físico, relacionado com a capacidade de distensão do rúmen do animal; fisiológico, onde a regulação é dada pelo balanço nutricional e o psicogênico, que envolve o comportamento do animal diante de fatores inibidores ou estimuladores, relacionados ao alimento e/ou ao ambiente. Os mecanismos físico, fisiológico e psicogênico interagem entre si determinando o perfil ingestivo de um animal a uma dada situação. O mecanismo de regulação fisiológico do consumo é dado pelo balanço nutricional ou status energético, ou seja, por suas exigências de manutenção e produção, onde a ingestão de matéria seca (IMS) é igual ao requerimento animal. Porém, em alguns casos, as forragens podem ser potencialmente ingeridas em quantidades menores que as preditas pela exigência devido ao controle físico.

Segundo Ingvartsen e Andersen (2000) diversos sinalizadores estão envolvidos no controle fisiológico da ingestão como metabólitos, peptídeos e hormônios. Contudo, Restle et al. (2000a) e Marcondes et al. (2008) ao avaliarem o consumo de matéria seca, não observaram diferenças entre animais inteiros e castrados submetidos ao confinamento, enquanto Casaccia et al. (1993) verificaram maior consumo diário de matéria seca nos animais inteiros em relação aos castrados.

A grande variação no consumo apresentada pelos animais através do óxido crômico, também foi verificada pelo monitoramento diário do consumo diretamente no cocho (pesagem da dieta oferecida e das sobras no dia seguinte), onde essa flutuação pode ser visualizada na figura 2. Os valores médios do consumo obtidos pelo método direto e indireto durante os dois períodos foram de 4,31 e 3,75 kg de MS/cabeça/dia; 5,03 e 5,12 kg de MS/cabeça/dia, respectivamente, indicando que o óxido crômico estimou o consumo próximo do realizado (Pinto, 2011). A flutuação apresentada no consumo diário possivelmente se deve a ocorrência de quadros de acidose subclínica durante o período experimental. Nesse estudo, 10 animais foram retirados do confinamento durante a fase inicial por apresentarem sintomatologia característica de acidose (depressão, inapetência, timpanismo e diarreia).

Segundo Forbes (2007), a ingestão excessiva de amido de rápida fermentação ocorre muitas vezes quando os animais estão sendo adaptados a uma dieta altamente concentrada e/ou quando os animais estão migrando de uma regulação de preenchimento para uma regulação quimiostática. Fulton et al. (1979) observaram que, após um surto de acidose o consumo de ração foi baixo. Em função desse fato, os autores sugeriram que um padrão de consumo cíclico reflete ataques repetidos de acidose. Britton et al. (1991) usaram a variação no consumo entre os dias como um índice de acidose subclínica ou crônica, baseados no conceito que uma maior variabilidade do consumo diário por cada animal está associado com alimentação com dietas acidogênicas. Essas variações apresentadas no consumo fizeram com que os animais não alcançassem o consumo de MS desejado, ficando em 4,69kg de MS/dia, impedindo um ganho médio diário (GMD) e peso de abate, inferiores (Pinto, 2011).

Segundo Pinto (2011) alguns estudos trabalhando com machos jovens inteiros observaram consumos superiores. Secrist et al.(1996a) relataram consumo médio de 8,85kg MS/dia, Ramirez et al. (1985) de 7,01kg MS/dia e Savastano (2000) de 7,54kg MS/dia. Desta forma, em função dos diferentes níveis de consumo de MS, suspeitou-se tal fato tenha prejudicado a expressão dos efeitos de tratamento sobre o desempenho e características da carcaça.

  1. As vacas apresentam uma eficiência reprodutiva baixa.
  2. Repetição de serviços.
  3. Morte embrionária precoce elevada.
  4. Abortos (confirmados, com diagnóstico de doenças da reprodução).
  5. Infecções uterinas.
  6. Mastites.
  7.  Retenção de anexos fetais (RAF).

Alguns técnicos têm carregado demais no fornecimento de Selênio nas dietas de seus animais, e com isso alguns animais, em vez de serem beneficiados pelo Selênio, são intoxicados pelo mesmo, mostrando isso de uma forma discreta, ou mesmo apresentando sinais típicos de selenose.

Considerações finais

A nutrição mineral inadequada é um severo fator limitante da produção de ruminantes em regiões tropicais. As forrageiras normalmente não atendem todos minerais em quantidades necessárias, sendo importante a suplementação mineral dos bovinos a pasto de maneira racional e lógica baseada nas exigências de cada categoria, no diagnóstico de deficiências.

A suplementação mineral de bovinos deve ser realizada como uma ferramenta para aumentar os índices de produtividade animal e não somente para evitar sinais de deficiências.

Referências bibliográficas

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NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dairy Cattle.  Washington, D.C. National Academy of Sciences, 7 ed., 420 p., 2001.

SMITH, O.B., AKINBAMIJO, O.O. Micronutrients and reproduction in farm animals. Animal Reproduction Science, v. 60-61, p. 549-560, 2000.

SANTOS, J.E.P. Efeitos da nutrição na reprodução. Revisão. Veterinary Medicine Teaching and Research Center, School of Veterinary Medicine, UC-Davis. 1999.

UNDERWOOD, E.J. & SUTTLE, N.F. The Mineral Nutrition of Livestock. CAB International. 1999.

* As fotos são do livro “Nutrição de bovinos a pasto” de autoria do primeiro autor deste artigo.

 
     
 
   
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