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CANA FORRAGEIRA C.V. IAC 86-2480

Herbert Vilela,
Engenheiro Agrônomo e Doutor

O Brasil é hoje o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. A área cultivada atinge aproximadamente 5,5 milhões de hectares. Estima-se que 10% desta produção destina-se a alimentação animal. Assim, nesta área seriam produzidos algo em torno de 30 milhões de toneladas de forragem verde. Isto seria o suficiente para suplementar 15 milhões de bovinos durante 150 dias ao ano. Hoje, a cana-de-açúcar tem se tornado um volumoso de uso preferencial entre os pecuaristas por apresentar características tais como a possibilidade de sua conservação mediante silagem, persistência da cultura e o grande rendimento obtido em nossas condições.

Contudo, a silagem obtida apresenta um alto nível de etanol alcançando valores de até 21% o que resulta em um produto que inviabiliza o processo de ensilagem devido as perdas observadas dentro e fora do silo. Tornar-se-ia importante a utilização de um aditivo biológico que promoveria uma redução na produção de álcool.

Outro aspecto, diz respeito ao perfil qualitativo da cana como volumoso relacionado principalmente a digestibilidade da fibra e seu conteúdo de açúcar. Na prática, esse aspecto tem sido negligenciado como se todas as variedades de cana em qualquer tempo de seu desenvolvimento fossem iguais para a produção forrageira. Vários trabalhos mostram que este fator deve ser considerado de modo mais efetivo.

Recentemente, a cultivar de cana-de-açúcar IAC 86-2480, recém obtida por processo de seleção, tem se destacado como nova opção para a finalidade forrageira com sua utilização racional para produção de leite e de carne. Esta variedade, é um híbrido interespecífico resultante de um cruzamento manual envolvendo o parental US 71-399 que recebeu pólen de uma variedade desconhecida.

Algumas características importantes desta nova cultivar:

  • Boa produtividade (300t/ha em três anos);
  • Ótimas características fenológicas;
  • Resistência ao acamamento;
  • Ausência de florescimento;
  • Menor teor de FDN (44,18%); maior teor de açúcar;
  • Maior digestibilidade "in vitro" da matéria seca durante o ano (65,90% em maio e 63,37% em agosto);
  • Melhor desempenho animal quando comparada com as variedades comuns (0,890kg/dia x 0,760kg/dia).

O conceito que as melhores variedades de cana-de-açúcar forrageira seriam aquelas que apresentassem alta proporção de folhas e palmitos em relação a massa verde total (Boin et al.,1987), não tem hoje mais sustentação. Rodrigues et al. (2002) coloca como fator principal da qualidade da cana, seu teor em açúcar. Portanto, os fatores mais importantes para seleção de uma variedade forrageira seriam o seu teor em açúcar, produção de forragem (MS) e teor de fibra (FDN). A composição da planta de cana é apresentada no Quadro 1.

Quadro 1 - Composição da planta de cana-de-açúcar forrageira.

PARTES DA PLANTA

COMPOSIÇÃO - %

FORRAGEM VERDER

FORRAGEM SECA - MS

Colmo (caule)

78,7

76

Pontas (flecha)

9,5

7,8

Folhas verdes

6,4

6,7

Folhas secas

3,1

7,3

Bainha

2,3

2,2

Outros fatores desejáveis são porte ereto da touceira, planta tardia, resistencia às pragas e doenças. A composição bromatológica da cana-de-açúcar torna-se importante, face aos novos conceitos sobre as características desejáveis da planta e seu valor nutritivo. A composição bromatológica da cana-de-açúcar obtida por Melo et al. (2004), com a variedade IAC86-24-80 comparada com os resultados mostrados por Landell et al. (2002), com 66 variedades é apresentada no Quadro 2.

COMPONENTES

COMPOSIÇÃO

IAC (2002)

MELO et al. (2004)

MS Total (%)

17,00-30,00

25,88

PB (%)

1,06-3,06

2,38

FDN (%)

67,70-42,56

43,02

FDA (%)

-

25,80

LIGNINA

4,60-8,43

10,74

HEMECELULOSE

-

17,22

CELULOSE

-

23,24

NDT

-

64,55

CHO-SOL

32,30-57,44

43,80

DIVMS

40,04-64,10

59,53

Segundo Nussio (2004) de modo geral uma célula de cana-de-açúcar apresenta as seguintes características, 55% de parede celular e 45% de conteúdo celular com 40 e 90% de digestibilidade respectivamente. A composição bromatológica média da cana-de-açúcar é de 26 a 34% de MS, 2,5 a 3,5% de PB, 52 a 57% de FDN, 2,5 a 5,5% de cinzas e 56 a 63% de NDT.

Segundo Gooding (1982), variedades com menor teor de fibra (FDN) e lignina permitirão maior consumo de açúcar do que aquelas com maior teor de fibra. Portanto, segundo este autor é importante conhecer a relação fibra/açúcar adequada para a alimentação de ruminantes. Trabalho de Rodrigues, et al. (1997 e 2001), mostraram inicialmente, que esta relação variava de 2,3 a 3,4. Posteriormente, verificou uma variação mais larga de 2,88 a 4,14 para a ralação o FDN:POL, com 16 variedades de cana. Observaram que as melhores variedades neste sentido foram as IAC86

SILAGEM DE CANA DE AÇUCAR

Herbert Vilela,
Engenheiro Agrônomo e Doutor

Adilson Antônio de Melo,
Zootecnista e Especialista em Produção Animal.

I - INTRODUÇÃO

A alimentação dos rebanhos é motivo de preocupação em quase todas as regiões do Brasil principalmente, durante o período da seca. Este fato ocorre porque nesta época do ano, as forragens diminuem ou cessam o seu crescimento vegetativo e iniciam seu crescimento reprodutivo. Como conseqüência, tornam-se pouco nutritivas e apetecíveis aos animais, sendo que nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do país, este período coincide com os meses sem chuvas, com baixas temperaturas associadas a baixas intensidades de radiação eletromagnética. Assim, a estacionalidade da produção de forragens é uma realidade e a cada ano que passa, observam-se as conseqüências deste período sobre a produção animal. Rebanhos debilitados, produtividade animal muito baixa ou nula, morte de animais e, como resultado final, produtores rurais acumulando prejuízos (Torres e Costa, 2001; Evangelista e Lima, 2000).

II - ENSILAGEM DA CANA

A conservação da cana da forma de silagem vem despertando nos últimos anos grande interesse por parte dos produtores e pesquisadores, em face das vantagens em logística e operacionalidade que este volumoso oferece.

Este interesse pode ser avaliado pelo número de trabalhos publicados pelos Anais da Sociedade Brasileira de Zootecnia nestes últimos sete anos (Quadro1).

Quadro 1 - Número de trabalhos publicados nos Anais da Sociedade Brasileira de Zootecnia, nos últimos sete anos.

Ano

Número de Tabalhos

Instituições

1998

0

0

1999

2

1

2000

1

1

2001

5

1

2002

8

3

2003

13

11

2004

12

10

A maioria destes trabalhos foi feito com objetivo de identificar um aditivo capaz de reduzir a produção de álcool, durante o processo de fermentação na ensilagem, que é característica deste tipo de material. Obtendo com o uso de aditivos eficientes menores perdas do processo de ensilagem da cana.

a. Fermentação alcoólica

A maioria das forrageiras ensiladas apresenta problemas para alcançar um processo fermentativo adequado devido ao seu baixo conteúdo de CHO-SOL. Com isto, fontes de carboidratos têm de ser adicionadas a essas forrageiras no momento da ensilagem, visando o incremento no desenvolvimento de bactérias anaeróbias lácticas (BAL) e conseqüentemente, a obtenção de silagens de melhor qualidade (Wilkinson, 1998). Com a cana-de-açúcar, a situação é inversa visto que a abundância de carboidratos solúveis desta forrageira estimula não só a ocorrência de fermentação ácido-lática no material ensilado, como também a fermentação alcoólica, causando assim perdas significativas de MS em relação à matéria original (Preston et al, 1976).

A fermentação da cana de açúcar ocorre naturalmente em condições naturais dentro do silo, pelas leveduras nativas (Epífitas), convertendo açúcar em etanol, água e CO2, ocorrendo redução no valor nutritivo e elevadas perdas durante a fermentação e após abertura do silo. Estas leveduras que sobrevivem a pH baixos (até 2,0) e em altas concentrações (106ufc/g) dez bilhões de unidades formadoras de colônia por grama de forragem, promovem a deterioração aeróbia da forragem e redução de pH da silagem (Driehuis et al,1999). O álcool produzido significa perdas por razões da fermentação do açúcar com perda de CO2 (49% dos CHOs, McDonald et al, 1991) e por volatilização do álcool na massa ensilada e no manejo alimentar. Alli et al (1982), verificaram que uma vez que a concentração de ácido acético na silagem de cana foi baixa, pode-se concluir que as BAL heterofermentativas não foram os microorganismos responsáveis pela produção de álcool no material e sim as leveduras. Eles demonstraram que a formação de 9 % de etanol na MS pela atuação de leveduras consumiu cerca de 50% da sacarose que estava presente na matéria orgânica original. A perda de peso durante o período de fermentação, em relação ao peso original do material ensilado é da ordem de 5 a 6%, sendo o resultado da perda de CO2 e álcool por evaporação.
Convém salientar que o álcool como alimento é aproveitável devido a sua conversão em acetato no rúmen (Chalupa et al,1964).

O etanol residual na silagem provoca rejeição de consumo pelo animal, logo após seu fornecimento no cocho (Schmidt et al. 2004), contudo se ingerido apresenta significativa contribuição energética ao animal, por via direta.

O valor parametrizado para maximização do valor nutricional e ingestão de gramíneas tropicais foi obtido por Huhtanen et al (2002) como sendo:

D = 530 (g/kgMS), AT (ácidos totais) = 180 (g/kgMS) e N-amoniacal = 100 (g x kg de N total).

b. Aditivos para a cana de açúcar

Com o objetivo de alterar a principal rota fermentativa ocorrida nas silagens de cana de açúcar e de reduzir as perdas do valor nutritivo nesse volumoso, têm-se usado aditivos químicos e biológicos que inibam a população de leveduras e/ou bloqueiam a via fermentativa de produção de álcool.

b.1 Aditivos químicos

Uréia

Resultados do uso de uréia como aditivo químico redutor de perdas no processo de ensilagem da cana de açúcar são apresentados no Quadro 2.

Quadro 2 - Valores médios de perdas e produção de álcool em silagem de cana de açúcar.

Fonte

Parâmetros Analizados

Doses de Uréia (%MV)

Perdas de MS (%)

Álcool (% MS)

Efluentes (kg/tMV)

Pedroso (2003)

0

18,2

3,8

15,1

0,5

12,2

4,2

28,5

1

7,6

4,1

32,2

1,5

6,6

3,5

26

Siqueira et al (2004)

0

30,9

-

95,9

0,5

22,8

-

93,7

1

21,9

-

96,7

1,5

27,7

-

86,3

2

24,3

-

88,5

De modo geral doses entre 0,5 e 1,0% da MV sugerem serem mais efetivas em reduzir as perdas fermentativas, mas nenhum efeito sobre o controle de produção de álcool e efluentes. Estes resultados quando comparados com aqueles com doses maiores, sugerem que doses mais elevadas de uréia exercem um efeito tampão, sendo crítico ao processo de fermentação. Quanto maior a dose de uréia usada, menor é sua recuperação. Doses acima de 1% a recuperação é de 68% contra 95% em doses menores. Outros aditivos químicos também tem sido testados como o hidróxido de sódio, o benzonato de sódio etc, mas com restrições devido a problemas do excesso de sódio na dieta do animal e com custos elevados.

b.2 Aditivos microbianos

De modo geral a inoculação com bactérias produtoras de ácido láctico na forragem ensilada acelera a queda do pH e reduz o pH final a valores menores, aumento na concentração de ácido láctico, reduz a produção de efluentes e perdas de matéria seca no silo; melhorando o desempenho dos animais alimentados com estas silagens (McDonald et al, 1991).

Os aditivos microbianos que contém cepas de bactérias lácteas são divididos em dois grupos:

  • Bactérias homolácteas (BAL) caracterizam por exclusiva produção de ácido lácteo (Lactobacillus plantarum, Lactobacillus sp., Streptococcus faecium, Pediococcus sp).
  • Bactérias heterolácteas que produzem além de ácido lácteo, quantidades significativas de ácido acético e propiônico. A bactéria heterofermentativa Lactobacillus bucheneri seria potencialmente a recomendada como aditivo para cana de açúcar (Nussio et al, 2003), por ter reduzido a população de leveduras quando usada em silagem de milho (Ranjit & Kung Jr, 2000).

Pedroso et al, (2002) testaram dois aditivos bacterianos, um homolácteo (Lactobacillus plantarum - 106 ufc) e outro heterolacteo (Lactobacillus bucheneri - 106 ufc) e os resultados após 90 dias de fermentação são apresentados no quadro3.

Quadro 3 - Efeito de aditivos microbianos sobre os parâmetros fermentação e perdas de MS na ensilagem de cana de açúcar.

Tratamentos

Variáveis

pH

Etanol % MS

Gases % MS

Efluentes l/tMV

Recuperação MS %

Controle

3,69

3,06

9,7

15,1

80,9

L. plantarum

3,58

9,81

13,9

29,9

77,7

L. bucheneri

3,52

1,75

8,4

24,7

90,5

A inoculação com bactéria homoláctea (Lactobacillus plantarum) triplicou a produção de álcool e levou a menor recuperação da matéria seca (77,7%), como conseqüência de maiores perdas de gases e efluentes. A aplicação do L. bucheneri resultou em redução de produção de álcool (1,75%), menores perdas gasosas (8,4%) e maior recuperação da matéria seca (90,5%).

Outro trabalho de Siqueira et al (2004) muito semelhante ao anterior, em que o autor usou um tratamento com aditivo composto por L. plantarum e Propionibacterium e outro com L. bucheneri em forragem de cana de açúcar. Os resultados obtidos mostraram os mesmos efeitos positivos do L. bucheneri e nenhum efeito do aditivo composto sobre a produção de álcool, produção de gases e recuperação da MS, em relação ao tratamento controle.

Estes resultados evidenciam a necessidade de se fazer o uso de um aditivo correto para a silagem de cana de açúcar, uma vez que o uso de aditivos inadequados reduz a qualidade da silagem, o que implica em elevação do custo por unidade de matéria seca digestível do volumoso.

Outro ponto importante referente a perda de componentes nutritivos é a perda após abertura do silo. È a chamada estabilidade aeróbia, ou seja, a propriedade que a silagem adquire em não se deteriorar quando em contato com o oxigênio do ar, não permitindo o desenvolvimento de microrganismos.

O processo de deterioração aeróbia é iniciado pelas leveduras, oxidando o principal produto da silagem, o ácido láctico, causando elevação do pH. Com a elevação do pH surgem outros microrganismos que virão comprometer a qualidade nutritiva da silagem bem como sua higiene devido ao desenvolvimento de microrganismos patogênicos (Driehuis et al, 1999).

Neste sentido, Toledo Filho et al (2004) estudaram a deterioração de silagem de cana de açúcar com e sem o L. bucheneri, associado a enzima fibroílitica.

Quadro 4 - Estabilidade aeróbia de silagem de cana de açúcar, após 10 dias de sua abertura, com L. bucheneri e com enzima.

Variáveis

Tratamentos

Controle

L.bucheneri

L. bucheneri + Enzima

Temperatura máxima alcançada pela silagem, 10 dias após abertura

22,3

18,1

21,5

Dias para atingir-se a temperatura máxima

1,6

6,6

3,6

pH máximo atingido pela silagem

4,6

3,8

3,7

Dias para alcançar o pH máximo

9,6

6,6

6,3

Perdas MS (%)

19,8

18,6

19,5

Verifica-se que o L bucheneri elevou a estabilidade aeróbia da silagem. Uso da enzima fibrolítica reduziu a estabilidade da silagem.

Não basta obter uma boa estabilidade da silagem, se não há um manejo adequado para a retirada do silo. O oxigênio penetra até 6cm por dia no perfil do painel do silo. As camadas diárias a serem retiradas devem uniformes e superiores a 15 a 30cm. Quando se tem somente silagem normal em um perfil de um silo o consumo de silagem é de 7,95 kgMS/animal. Quando a relação de 75/25 de silagem normal/deteriorada o consumo passa para 7,35; quando passa para 50/50, o consumo é de 6,95 e quando é 25/75, o consumo é de 6,67.

b.3 Aditivos seqüestrantes de umidade

Os aditivos seqüestrantes de umidade são normalmente, fontes de carboidratos, cereais, farelos, entre outros, que visam elevar o teor de matéria seca das silagens, reduzir a produção de efluentes e aumentar o valor nutritivo das silagens (McDonald et al,1991).

A maioria dos trabalhos neste sentido tem evidenciado mais o efeito da redução do teor de umidade em forragens colhidas úmidas, reduzindo a perda por formação de efluente do que a inibição na atividade de leveduras e produção de álcool.

Andrade et al (2001) quando aumentou em sete unidades percentuais (12% de MDPS) no teor de MS da forragem de cana de açúcar não houve produção de álcool. Este resultado foi devido à baixa tolerância das leveduras a alto potencial osmótico da forragem.

Casali et al (2004) estudaram o efeito de níveis crescentes de batata desidratada (0, 7, 14, 21,28%MV) em forragem de cana de açúcar com 20,1% MS. Observou-se redução linear na perda por gases e na perda por efluentes.

Silva et al (2003) estudaram o efeito da adição de fubá (8% MV) a forragem de cana de açúcar, na presença ou não de inoculantes. Não houve efeito da adição dos aditivos sobre as variáveis fermentativas da silagem de cana (ácido propiônico, ácido acético, ácido láctico e etanol). O teor de etanol foi alto em todos os tratamentos porque o nível usado de fubá não permitiu que houvesse alteração do teor de MS e conseqüentemente redução da atividade fermentativa das leveduras.

Trabalho de Bernardes et al (2002) foram conduzidos no sentido de estudar o efeito do aditivo MDPS em forragens provenientes de cana queimadas ou não e seus resultados são mostrados no Quadro 5.

Quadro 5 - Estudo do efeito do aditivo milho desintegrado com palha e sabugo em forragem verde e queimada de cana de açúcar.

Adição de MDPS

Tratamento da forragem

Forragem Natural

Forragem queimada

pH

Etanol - %MS

pH

Etanol- %MS

MDPS - 10%

3,4

6,54

3,6

7,27

Controle

3,5

9,85

3,7

10,21

Verifica-se que houve redução no teor de etanol na forragem não queimada com 10% de MDPS em relação a queimada. Este resultado pode ser devido a maior contagem de leveduras (244%) na silagem de cana queimada (446,4ufc/g) em relação a não queimada. Os autores concluem que as silagens da cana queimada têm maiores teores de etanol devido à transformação de sacarose em glicose e frutose, com conseqüente menor teor de açúcar redutor o que afeta o crescimento das leveduras.

b.4 Aditivos combinados

Vários trabalhos de pesquisa têm sido feitos associando diferentes tipos de aditivos, visando o efeito sinergético na redução das perdas fermentativas em silagens de cana de açúcar.

Contudo, aspectos econômicos tem sido o limitante do uso desta tecnologia. Freitas et al (2004) estudaram os efeitos dos aditivos L. buchneri e L. plantarum associados ou não ao de colheita de soja na produção de silagem de cana de açúcar. Verificaram que os aditivos foram eficientes quando usados com o resido da soja (Quadro 6).

Quadro 6 - Associação de aditivos químicos e microbianos na ensilagem da cana de açúcar

Tratamentos

pH

Produção de gases % MS

Produção de efluentes kg/tMV

Estabilidade aeróbia Horas

Perda Total % MS

Controle

3,75

15,9

76,2

32

32,5

L.plantarum

3,55

19,9

84,9

60

33,6

L.buchneri

3,43

13,2

66,5

60

19,2

Uréia

4,24

13,2

56,5

40

27,8

Uréia+L.pl.

4,29

13,9

83,9

60

22,5

Ureia+L.b.

4,59

12,2

75,0

48

20,3

NaOH

4,64

9,1

3,2

24

28

NaOH L.pl.

4,61

6,4

5,8

32

13,5

NaOH L.b.

4,47

6,2

2,3

48

5,9

Os níveis usados foram de uréia 0,5% MV e de hidróxido de sódio 1% MV em uma forragem com 35% de MS.

Em relação aos aditivos microbianos usados como exclusivos, apenas o L buchneri foi efetivo no controle na produção de efluentes e redução das perdas totais. A adição de hidróxido de sódio juntamente com Lactobacillus plantarum reduziu a produção de gases e perdas de MS. Não houve efeito dos aditivos microbianos sobre a estabilidade aeróbia. Contudo, silagens com NaOH apresentaram menos tempo para a elevação da temperatura em 20. Este efeito pode ser decorrente da menor concentração de produtos da fermentação (ácidos orgânicos) que apresentam ação inibitória sobre fungos e mofos (Danner et al, 2003).

III - DESEMPENHO DE ANIMAIS ALIMENTADOS COM SILAGENS DE CANA DE AÇÚCAR

Os trabalhos com avaliação dos produtos obtidos de tratamentos com aditivos são pouco disponíveis na literatura.

Pedroso et al (2003) avaliou o desempenho de novilhas holandesas alimentadas com silagem de cana de açúcar não tratada e tratadas com uréia (0,5% MV), benzoato de sódio (0,1% MV) ou L.buchneri (Quadro 7).

Quadro7 - Desempenho de novilhas holandesas alimentadas com rações contendo silagens de cana de açúcar aditivadas.

Tratamentos

Parâmetros avaliados

Peso inicial kg

Peso Final kg

Ganho diário kg

Consumo de MS kg/dia

Conversão alimentar kgMS/kg ganho

Controle

387,3

443,5

0,94

8,72

9,37

Uréia

391,5

453,8

1,03

8,75

8,63

Benzoato

386,3

451,7

1,14

8,61

7,63

L. buchneri

391,4

465,8

1,24

9,61

7,73

Verificou-se ganhos médios diários de 32 e 21% superiores a ração controle, para as rações contendo silagem de cana tratadas com L. Buchneri e benzoato de sódio, respectivamente. A conversão alimentar para esses tratamentos seguiu a mesma tendência.

Junqueira et al (2004) avaliaram doses de 1 e 1,5% na MV de uréia e inoculação com L. buchneri em silagens de cana de açúcar nas rações de novilhas leiteiras (Quadro 8).

Quadro 8 - Desempenho de novilhas leiteiras com silagens de cana de açúcar aditivadas e perdas de armazenamento das silagens em silos de grande escala.

Tratamento

Consumo MS kg/dia

Ganho de PV kg/dia

Conversão alimentar kgMS/kg ganho

Perdas no silo % MV Total

Controle

8,72

0,94

9,37

-

Uréia-1%MV

8,46

1,11

7,7

7,8

Uréia-2%MV

7,69

0,95

8,2

16,5

L. buchneri

9,03

1,13

8,3

5,1

Não foi observada diferença no desempenho entre as silagens com uréia ou com L. buchneri. A aditivação com uréia foi eficiente em manter adequado valor nutritivo da silagem de cana de açúcar. A inclusão de níveis superiores a 1% da MV pode elevar as perdas por deterioração, devido o efeito tampão da uréia.

Schmidt et al. (2003) avaliaram a inclusão de dois níveis de L.buchneri e a adição de uma enzima fibrolítica á silagem de cana de açúcar. Verificaram efeito positivo do aditivo sobre o consumo e ganho de peso de bovinos em confinamento (Quadro 9).

Quadro 9 - Desempenho de bovinos Nelore e Canchin alimentados com rações a base de silagem de cana de açúcar, inoculada com diferentes doses (ufc/gMV) de L buchneri e enzima.


Variáveis

Tratamentos

Controle

L.buchneri 5x10 4

L.buchneri 5x10 5

L.buchneri 5x10 5 + Enzima

CMS, kg

7,78

8,83

8,99

8,70

GPV, kg

0,82

1,03

0,98

1

CA,kgMS/kgPV

9,71

8,66

9,32

8,80

PV, Médio

491

517

514

515

CMS - Consumo de matéria seca por dia. ufc = unidade formadora de colônia
GPV - Ganho peso vivo diário
CA - Conversão alimentar

Em relação ao comportamento animal, os autores observaram que os animais que receberam silagem de cana sem aditivo despenderam mais tempo com a atividade de ingestão, ruminação e mastigação, principalmente nas primeiras seis horas após fornecimento do alimento. O menor consumo de forragem observado nesse tratamento pode estar relacionado com o teor de álcool existente.

IV - LITERATURA CONSULTADA

ALCÂNTARA, E., AGUILERA, A., ELLIOTT, R. et al. Fermentation and utilization by lambs of sugarcane haversted fresh and ensiled with and without NaOH4: ruminal kinetics, Anim. Feed Sci. And Tech., v. 23, p. 323-331, 1989.

ALLI, I., BAKER, B.E., GARCIA, G. Studies on fermentation of chopped sugarcane. Anim. Feed Sci and Tech, v.4, p411-417, 1982.

ALLI, I., FAIRBAIRN, R., BAKER, B.E. et al. The effects of ammonia on the fermentation of chopped sugarcane. Anim. Feed Sci. and Tech., v.9, p.291-299, 1983.

ALVAREZ, P.J., PRESTON, T.R. Performance of fattening cattle on imature and mature sugarcane. Trop. Anim. Prod. V.1, n.2, p. 106-113, 1976.

ALVAREZ, P.J., PRIEGO, A., PRESTON, T.R. Animal performance on ensiled sugarcane. Trop. Anim. Prod. v.2, n.1, p.27-33, 1977.

ALVIM, M.J, GARDNER, L.A., CÓSER, A.C. Produção de leite em pastagens de azevém (Lolium multiflorum L.) submetida a diferentes períodos de pastejo. Revista da Sociedade Brasileira de Zootecnia, v.15, n.5, p.425-431, 1986.

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