CASCO EQÜINO: UMA ABORDAGEM PRÁTICA SOBRE SUA QUALIDADE E CRESCIMENTO

Gustavo Alves de Faria1

  1. Médico Veterinário, mestre em Nutrição Animal pela Escola de Veterinária - UFMG

O casco é o estojo córneo que reveste a parte distal dos dedos do cavalo podendo ser considerado quanto ao volume, forma, qualidade da matéria córnea e integridade vascular. Da mesma forma que o cabelo, é composto essencialmente de proteína. Sua parede é formada de tubos microscópicos denominados cânulas e os espaços entre essas cânulas são preenchidos com células solidamente reunidas sendo a queratina a proteína essencial para aglomerar essas células e cânulas.

A qualidade do casco, assim como sua taxa de crescimento, é importante na avaliação do eqüino, pois afetam diretamente sua utilização. Cascos fracos geralmente se apresentam com rachaduras, quebradiços e com inabilidade para reter ferraduras durante o intervalo normal de casqueamento e ferrageamento.

O casco desempenha melhor suas funções de proteção, amortecimento, sustentação, impulsão e bombeamento de sangue quando está nivelado, proporcionalmente alinhado e com a sola côncava o que normalmente ocorre quando o cavalo está em liberdade ou desfruta de manejo e casqueamento corretos.

Quatro fatores influenciam na qualidade do casco: nutrição, hereditariedade, casqueamento e ambiente.

Nutrição:

A nutrição é reconhecida como importante fator no crescimento e na saúde do casco. A estrutura e conseqüentemente a qualidade do casco dependem essencialmente de um processo de queratinização fisiológica. Para isso, os tecidos requerem suprimento sangüíneo suficiente e balanceado nos nutrientes necessários à saúde do casco. Uma dieta deficiente pode causar crescimento inadequado do casco e quando essa dieta é corrigida nutricionalmente, pode-se incrementar a taxa de crescimento e a qualidade deste tecido.

Alterações qualitativas nos suprimentos de sais mineralizados, aminoácidos e vitaminas afetam o crescimento e o aspecto exterior de todas as partes do casco, e do mesmo modo que a pelagem mostra sinais clínicos reveladores de deficiência nutricional, o casco, como derivado da pele, comporta-se de modo idêntico.

Cascos escamosos e quebradiços podem sugerir que o cavalo padeça de déficit nos elementos específicos que constituem o casco como biotina, enxofre, zinco, lisina e metionina.

O aminoácido metionina pode ser empregado para promover rápido crescimento do casco; entretanto seu uso em doses que excedam a quantidade de 20 g por dia pode inibir a absorção dos minerais cobre e zinco, que também são importantes elementos para os cascos. Suplementação adicional com biotina ou cálcio pode ser benéfica para cavalos com paredes dos cascos fracas e quebradiças, ou cascos com solas demasiadamente macias, pois estudos mostraram sua ação na proliferação quanto à diferenciação dos queratinócitos, células que compõem o casco e que são responsáveis pelo seu crescimento.

A biotina ou vitamina H é essencial em duas etapas importantes do processo de formação de tecido córneo denominado queratinização: síntese de proteína e síntese de substâncias lipídicas. A D-biotina sintética também é utilizada na alimentação animal e o excesso de biotina na alimentação não foi demonstrado como sendo deletério.


A suplementação com 10 a 30 mg de biotina por dia (dependendo do peso corporal) durante, no mínimo 9 meses foi um tratamento de sucesso para melhorar a qualidade do casco eqüino como coadjuvante a outros procedimentos terapêuticos em experimento realizado em 1984. Existem também indicações de uma dose diária de 15 mg de biotina como tratamento preventivo nos casos de laminite na tentativa de melhorar a qualidade e o crescimento do casco.

O mineral cálcio é necessário para ativar uma enzima que está envolvida na formação do envelope celular das células do tecido que compõe o casco.

Doença da linha branca é o nome dado à síndrome de separação progressiva da parede do casco. Esta desordem ocorre no corno não pigmentado da junção entre o extrato médio e o casco laminar. Múltiplas são as causas sugeridas para a doença da linha branca: fatores nutricionais, fatores mecânicos e organismos infecciosos. Dentre os efeitos nutricionais está a deficiência de zinco. Esse mineral está presente na pele, pêlos e cascos.

O consumo prolongado, em excesso, de selênio causa além de deformidades nos cascos, perda dos pêlos da crina e cauda, rigidez articular, anemia e perda de peso.

Fatores Hereditários

A conformação ruim e má qualidade dos cascos vêm sendo observadas em linhagens de algumas raças de cavalos e pôneis. Algumas características indesejáveis que determinam qualidade dos cascos são continuamente repassadas em algumas famílias.

Cavalos com cascos menores e mais rijos possuem menor velocidade de crescimento do casco. Em cavalos de mesma raça observa-se um caráter individual influenciando no crescimento do casco.

Casqueamento e ferrageamento

Cada cavalo é um indivíduo que tem sua própria conformação a ser atendida ou melhorada. Quando o cavalo tem seus cascos aparados e ferrageados de forma correta, ele apresenta o melhor de seu desempenho.

Para isso a revisão dos cascos para casqueamento e ferrageamento deve ser feita a cada 4 ou 6 semanas. Intervalos menores se fazem necessários nos casos mais severos. A limpeza do casco deve ser feita de 2 em 2 dias a fim de tirar os detritos que se acumulam retendo umidade.

O processo de casqueamento e o subseqüente ferrageamento compreendem funções bastante difíceis. As várias particularidades morfológicas existentes entre os cascos dos diferentes membros permitem concluir que uma simples alteração das proporções numa das metades do casco é suficiente para causar a perda do balanceamento e desencadear problemas morfomecânicos com sérias repercussões nos tecidos internos do órgão distal.

A função do casco é amortecer e igualar as forças tridimensionais que ocorrem entre o casco e o solo. Quando essas forças não forem uniformes o suprimento sangüíneo estará comprometido e um remodelamento da falange distal acontecerá, bem como uma distorção na simetria do casco. Teoricamente o casco irá crescer simetricamente quando o peso for distribuído igualmente sobre si.

A parede do casco cresce cerca de 8 mm por mês, sendo uniforme em todo o seu contorno. O desgaste somente será em desnível quando existirem alterações morfológicas profundas. A sola e a ranilha tendem a crescerem mais devagar comparadas à parede do casco. Fraturas na área da pinça e rachaduras que atingem a transição da camada média com a profunda são os danos mais freqüentes nos casos de cascos muitos crescidos.

Existem 6 parâmetros que devem ser avaliados para se considerar um casco balanceado:

  1. comprimento da pinça;
  2. ângulos do casco;
  3. orientação mediolateral do casco;
  4. sola não susceptível, espessura das barras e ranilha;
  5. contorno da muralha e área de contato com o solo;
  6. simetria entre os cascos e os membros.

Em um cavalo ideal o centro de gravidade do membro e o centro de gravidade do casco são idênticos (figuras 1, 2, 3 e 4)

Figura 1:

Centro de Gravidade dos Equinos
Fonte: Butler (1994)

Figura 2:

Centro de Gravidade dos membros
Fonte: Butler (1994)

Figura 3:

Centro de Gravidade do Casco
Fonte: Butler (1994

Figura 4:

Balanceamento e nivelamento dos cascos
Fonte: Butler (1994)

A ferradura altera a percepção das estimulações naturais exigidas pelas células responsáveis pelo crescimento do casco. Se o casqueamento e ferrageamento vão alterar o alinhamento do casco, o melhor é nunca programá-los, pois cascos desnivelados pelo casqueador vão distribuir as resultantes das forças de modo irregular e, assim, ocasionar efeitos negativos sobre as  células que fazem a queratogênese. É importante lembrar que o crescimento da pinça, dos quartos e dos talões está na razão inversa da ordem e intensidade das pressões recebidas por eles.

Ambiente

Quando os cavalos viviam livres na natureza não tinham problemas de cascos. O exercício constante e o contato permanente com seu habitat natural produziam cascos  sadios e perfeitamente adaptados às necessidades funcionais dos animais. Uma vez aprisionados os cavalos passaram a exigir cuidados especiais, principalmente relacionados aos cascos, pois a sujeira que se acumula nas baias, além da umidade excessiva são os maiores inimigos dos cascos.

A deterioração do material córneo da ranilha é mais freqüente quando  ele fica em contato prolongado com a umidade, produtos químicos e ação de bactérias e fungos.

Cavalos que evoluíram em áreas alagadiças, como o Pantaneiro e o Marajoara têm cascos mais resistentes à embebição hídrica. A graduação higroscópica regula a consistência alterando o coeficiente elástico e levando o material córneo a estágios de rigidez que facilitam fraturas nas partes em contato com o solo (descamações da sola). Glândulas espiraladas ramificadas ocorrem essencialmente na parte que se sobrepõe à crista central da ranilha. Seus ductos seguem percursos ligeiramente sinuosos através do cório e trajeto espiralado através da cunha. A secreção é gordurosa. Essas estruturas e seus ductos excretores são facilmente contaminados por bactérias e fungos existentes nos ambientes muito úmidos e ricos em matéria protéica apodrecida, nos pisos dos boxes.

Existe estreita relação entre desgaste e estimulação para a queratogênese que propicia crescimento. Nos solos áridos e semi-áridos, haverá maior desgaste associado com maior crescimento. Já nos climas frios e mais úmidos, o desgaste vai ser menor e, portanto, também a estimulação para a queratogênese.

As regiões desérticas afetam toda a vida do animal que é forçado a sobreviver ali. As paredes do casco dos cavalos tornam-se mais grossas e mais rígidas para suportar o desgaste do solo duro e rochoso.

Outros fatores

O grau de crescimento do casco declina com a idade, mas o sexo do animal  não altera a qualidade e nem o crescimento do casco.

Outro aspecto que deve ser mais pesquisado quanto a sua influência na rigidez dos cascos é a coloração. Segundo alguns pesquisadores a coloração do casco não tem nenhuma associação com resistência e problemas na muralha, porém Faria (2003) ao comparar a composição química dos cascos pretos e cascos brancos de muares e eqüinos das raças Pantaneira e Mangalarga Marchador sugeriu que a variação dos teores de umidade, lípides, zinco e cobre encontrada pode justificar as diferenças de resistência observadas na prática.

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