ESTRATÉGIAS PARA PRODUÇÃO EFICIENTE DE LEITE EM PASTAGENS TROPICAIS

Leovegildo Lopes de Matos
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INTRODUÇÃO

A discussão sobre sistemas de produção de leite e a viabilidade econômica do agronegócio do leite no Brasil não chega a se aprofundar suficientemente para que conclusões sem “paixões” ou a “defesa de interesses” possam servir de marco orientador na tomada de decisões, nos vários níveis, tanto público quanto privado, em benefício da sociedade.

Isso nos remete a uma série de discussões, em 1996, quando a Embrapa Gado de Leite organizou e promoveu o Simpósio Internacional “O Futuro dos Sistemas de Produção de Leite no Brasil”. Entre os conferencistas convidados estava o Dr. Tom Cowan, do Departamento de Indústrias Primárias do Estado de Queensland (QDPI), Austrália. Defendeu então, naquela ocasião, o “modelo autraliano”, com vacas leiteiras de origem genética norteamericana, em pastagens de azevém no inverno e recebendo alimentos conservados, principalmente silagem de milho, praticamente o ano inteiro, com o uso abundante de concentrados. Naquele momento estava sendo praticado, por mais de 20 anos, um sistema de cotas, com preços pagos ao produtor de A$ 59 centavos/L, enquanto o preço do extra-cota estava a A$ 24 centavos/L. A produção de leite estava inteiramente regulada pelo governo (até o ano 2.000), por meio de um sistema de franquias e registros das propriedades leiteiras. Dessa forma, a ênfase era a manutenção de um fornecimento consistente de leite para manter a “cota”. Isso foi conseguido com altos investimentos na propriedade leiteira e com a adoção de tecnologias relativamente caras, com pastagens temperadas anuais, intensivamente fertilizadas e irrigadas, necessitando serem implantadas a cada ano, forragens conservadas e concentrado. Com os preços de leite elevados praticados na Austrália, seus produtores podiam usufruir, com vantagenm, dos preços baixos dos grãos, o que lhes permitia adquirir 2,8 a 4,2 kg de trigo, centeio, cevada, aveia, triticale ou milho, com a venda de um litro de leite-cota.

Dessa forma, a melhor alternativa para os produtores australianos era o suprimento de sombra, silagem de milho de boa qualidade, caroço de algodão, cereais, além de subprodutos como resíduo de cervejaria e melaço, na busca constante da elevação da média de produção dos seus rebanhos. As campanhas do serviço de extensão, naquela época, procuravam conduzir os produtores nesse caminho. Exemplo disso vem de uma publicação do mesmo grupo do QDPI, mostrando que, nas condições prevalentes no final da década de 80 e início da década de 90, o retorno líquido por vaca aumenta com o aumento da produtividade média do rebanho. Isso é verdade, quando os preços de mercado dos grãos estiverem em torno de US$ 110.00 por tonelada e o leite sendo pago ao produtor a US$ 0.225 o quilograma Essa tendência, entretanto, é revertida se o preço da tonelada de grãos subir para US$ 150.00 e o preço do leite for mantido (Tabela 1).

TABELA 1. Margem sobre o custo da alimentação de vacas mantidas em pastagens tropicais, com dois preços para leite e concentrado.

Preço Concentrado (US ¢) 11,2 15,0
Preço Leite (US ¢) 22,5 28,1 22,5 28,1
Produção Leite (kg/Vaca/dia) ------------------ Margem ------------------ (US ¢/Vaca/dia)
10 1,5 5,0 -2,6 1,3
15 2,2 7,5 -4,0 2,0
20 3,0 10,1 -5,3 2,6
25 3,7 12,7 -6,7 3,2
Assumindo resposta de 1,3 L de leite/ kg concentrado

Esses níveis de utilização de insumos e de manejo aumentaram os custos de produção do leite, mas garantiram produção contínua ao longo do ano. O sistema de pagamento remunerava diretamente o volume produzido e os produtores australianos adotaram a raça Holandesa Frísia, particularmente de origem norte-americana. Precauções contra o calor excessivo e tecnologias para amenizar os riscos do estresse térmico e insolação levou os produtores a investirem em novas tecnologias, que além de caras não eram suficientes para corrigir os problemas reprodutivos e a queda nos níveis de proteína do leite, no norte da Austrália. O controle de carrapatos, outro sério problema dessa região, aparece como outro desafio, onerando mais ainda a produção de leite, com a preocupação subjacente com a possível elevação nos níveis de resíduos no leite. Todos esses fatores contribuem, direta ou indiretamente, para a elevação dos custos de produção do leite. A grande mudança ocorreu, como esperado, para atender a demanda crescente da indústria laticinista, com interesses no mercado internacional, e como conseqüência, veio a introdução de um preço único, mais baixo (da ordem de A$ 34 centavos/L) e com a possibilidade de flexibilização, que permite variação nos níveis de produção de leite ao longo do ano. O próprio Tom Cowan admite agora (http://www.animalscientist.org/community/node/231) que esse preço único adotado se constitui numa mudança cultural muito grande, uma vez que os produtores australianos estavam acostumados com preços cotas elevados e de certa forma, pouco incentivados a elevar suas produções, pois incrementos acima da cota, traziam menor remuneração marginal. A mudança de atitude em relação a sistemas de produção sazonais também é difícil para quem conviveu por tantos anos com sistemas que “comprovadamente” pareciam corretos.

O que está sendo proposto agora pelo QDPI e pelo Centro de Pesquisa em Pecuária Leiteira Tropical, da Universidade de Queensland, da Austrália (http://www.animalscientist.org/community/node/231) como alternativa para as grandes unidades de produção intensiva de leite, seriam os sistemas com rebanhos de tamanho modesto para os padrões australianos (100 a 200 vacas), com produção a baixo custo em unidades simples, baseadas em pastagens tropicais perenes, com alta capacidade de suporte, uso de subprodutos, com rebanho melhor “adaptado”, sugerindo em lugar da raça Holandesa-Frísia, animais da raça Jersey ou AFS (mestiças Sahival:Frísia Australiana), com alguma sazonalidade na produção, baixos investimentos em infra-estrutura e maquinário, com emprego de mão-de-obra familiar. O tipo de rebanho adaptado, assim recomendado, teria menor peso adulto, produção em torno de 4.100 kg/lactação, com níveis de proteína e gordura do leite mais elevados. Estes animais mostram melhor tolerância à radiação solar, alguma tolerância à infestação por carrapatos, facilidade para caminhar e melhor desempenho reprodutivo.

Isso mostra claramente que o modelo de produção de leite é definido pelo mercado de lácteos e preços de energia, custos financeiros, remuneração de mão-de-obra, custos de insumos, e principalmente, preços de grãos, uma vez que estes irão compor as formulações de rações concentradas para as vacas leiteiras. Assim, é inadmissível ouvir argumentos de “autoridades” do setor leiteiro, de que no nosso país, de dimensões continentais, com vários e diversos ecossistemas e condições edafoclimáticas, existe espaço para todos os sistemas de produção. Trata-se de uma falácia perigosa, partindo de pessoas respeitadas, que respondem a essa indagação afirmando conhecer várias propriedades trabalhando com o sistema a pasto dando prejuízo ao mesmo tempo em que diz conhecer vários confinamentos operando com lucro. Essa forma de omissão não poderia nunca ser esperada de alguém que tem capacidade de formar opinião, pois o que deveria  ser considerado é que nesse país, com dimensões continentais e com diversas condições edafoclimáticas, trabalha com um mercado comum de lácteos, sendo que o preço do leite e, principalmente, suas oscilações é que deveriam indicar um sistema de produção que fosse mais flexível e suportasse as condições impostas por esse mercado.

SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE LEITE PARA O BRASIL

Com as margens financeiras conseguidas pelo setor produtivo primário da cadeia do leite no Brasil, o produtor deve considerar como sua atividade principal a produção de forragem de boa qualidade, à qual deverá agregar valor, quando eficientemente transformada em leite, pelas suas vacas. Com os preços historicamente praticados no Brasil, tanto para os insumos, máquinas, equipamentos, energia e combustíveis, quanto para o leite produzido, as margens de lucro possíveis tem-se tornado cada vez menores, com evidente queda no poder de compra do leite. Some-se a isso os custos financeiros elevadíssimos, o que praticamente impossibilita planejar investimentos muito elevados em pecuária. Devem ser consideradas as perspectivas futuras, de preços dos fatores de produção acima mencionados em ascensão, exceto para o produto leite, este com tendência contínua de baixa. Dessa forma, a saída para o produtor é manter seus custos de produção suficientemente baixos, para permitir continuidade de sua atividade produtiva de forma econômica.

Considerando que a missão do produtor de leite é fazer de sua profissão uma atividade econômica, seu objetivo principal deve ser o aumento do lucro, pela otimização do desempenho do seu rebanho e não o aumento da produção individual de suas vacas. Isso é possível com a devida otimização da produção de leite da propriedade, com a eficiente utilização dos seus próprios recursos, com ênfase no manejo e fertilidade dos solos dedicados à produção de forragem, com a menor dependência possível de alimentação comprada e forragens conservadas.

Três pontos muito importantes, quando se pensa na produção primária do setor leiteiro brasileiro, principalmente após a estabilidade da nossa economia e com a adoção em massa da tecnologia UHT no processamento do leite para produção do “longa-vida”, balizador de preços do mercado interno. São eles:

  1. Qual o sistema de produção mais compatível com o agronegócio do leite no Brasil?
  2. Quais os alimentos podem compor o cardápio de nossas vacas?
  3. Que tipo de animal se adequa melhor a estas condições de manejo e alimentação, com eficiência produtiva e reprodutiva?

De forma alguma se pode aceitar respostas a primeira pergunta como sendo o melhor sistema aquele que dá lucro, ou que determinada tecnologia pode ser adotada em função da relação benefício : custo, pois são muito vagas e evasivas. Afirmar que o custo de produção não é importante, mas sim a margem financeira, é uma forma de tentar “tapar o sol com a peneira”. Se o produtor de leite norteamericano tem custo elevado se comparado ao produtor neozelandês, embora ambos consigam margem financeira semelhante, digamos de cinco centavos por litro comercializado, temos que entender que isso só é possível em função dos preços praticados por esses dois “mercados”, que remuneram seus produtores de maneira muito distinta. Em nosso caso, os dois sistemas de produção, norteamericano ou neozelandês praticados no Brasil, teriam obrigatoriamente de depender do mercado único, com preço bastante padronizado, para remuneração de seu produto leite. A conseqüência óbvia é que isso proporcionaria margens distintas para esses dois sistemas, e no longo-prazo, um teria que sucumbir. A história recente da nossa pecuária leiteira está mostrando o quanto o mercado tem sido cruel com aqueles que trabalham com custos de produção do leite incompatíveis com nosso mercado. 

A fuga em dizer que não adianta reduzir os custos de produção, porque a industria laticinista irá praticar preços ainda menores é uma visão distorcida dos fatos: os preços históricos do leite pago ao produtor mostram tendência de queda com perspectivas futuras de continuidade. Aqueles que, na gestão dos seus meios e recursos, adotarem tecnologias adequadas, que permitam baixar seus custos de produção, poderão alcançar a sustentabilidade necessária para permanência na atividade.

Como alimento para o rebanho leiteiro, fica muito difícil ser competitivo sem tirar proveito das nossas condições tropicais ou sub-tropicais e as vantagens comparativas que são possíveis, com o grande potencial produtivo das nossas gramíneas tropicais. Essas, muito mais eficientes no processo fotossintético e acúmulo de biomassa, devem ser manejadas de forma a permitir aos animais a seleção de dieta com valor nutritivo adequado, com pastejos freqüentes, em função da rápida queda no valor nutritivo que ocorre com a idade da rebrota.

A ênfase exagerada, que normalmente é dedicada à genética e à elevação da produção por vaca, pois produtividade individual é o chavão de forte promoção comercial, não tem levado em consideração dois fatores muito importantes. O primeiro se refere ao balanço estequiométrico e a termodinâmica (transformações metabólicas e fisiológicas que logicamente obedecem à Lei de Conservação das Massas, de Lavoisier), isto é, o leite é o produto da transformação dos nutrientes consumidos pelo animal. O segundo tem a ver com a Lei dos Retornos Decrescentes, isto é, biologicamente, as respostas marginais vão sendo reduzidas para cada incremento unitário de insumo utilizado, na faixa da curva além da inflexão posterior à fase linear de resposta. Como a atividade leiteira deve visar lucro, o ponto-ótimo econômico estará sempre antes do ponto máximo de resposta física ou biológica, principalmente no caso de vacas leiteiras, onde o incremento nutricional necessário para se manter maiores produções de leite, ocorre às custas de maiores participações de forragens conservadas e de alimentos concentrados, onerando muito os custos da dieta destas vacas de elevado potencial.

 Ao estudar as relações entre índices técnicos e econômicos em rebanhos leiteiros na Holanda, Rougoor e colaboradores concluem que, como esperado, a relação causal direta entre produção/vaca e margem bruta por 100 kg de leite foi positiva (associação bivariada estimada, abe = 0,17), entretanto devido a efeitos espúrios, o efeito total é negativo (abe= -0,19). A associação entre quantidade de concentrado por vaca e a margem bruta/100 kg leite é –0,40. Os autores concluem que o custos extras e o uso de quantidades elevadas de concentrado provavelmente suplantou as vantagens do efeito de diluição do custo com mantença das vacas de maior produção. Além disso, o foco das atenções devem estar voltados para a vida produtiva da vaca e não para um eventual recorde em uma lactação, pois a eficiência reprodutiva é importante e está muito na dependência do nível nutricional oferecido ao rebanho. A avaliação dos dados de rebanhos leiteiros dos Estados da Carolina do Norte e Virgínia mostraram que a margem líquida trazida por cada quilograma adicional de leite foi de US$ 0,22 com produções de 5.000 kg/vaca/ano, decrescendo a zero ao atingir 8.162 kg/vaca/ano. Receitas menos despesas por vaca caiu US$ 7,70 por cada 0,1 serviço adicional por concepção e $ 3,20 por cada 1% de aumento nas taxas de reposição de novilhas. Incidência elevada de doenças e problemas sanitários em geral, altas taxas de mortalidade associados aos baixos índices reprodutivos, impedindo a manutenção da população, que pareciam ser problemas dos animais de raças de origem européia importados para as regiões tropicais e sub-tropicais, como já mostrado pela Professora Lucia Vaccaro, da Universidade Central da Venezuela, são comuns aos problemas enfrentados por rebanhos de alta produtividade nos países de clima temperado.

Se o interesse é a produção de leite, logicamente nem todos podem investir somas elevadas na manutenção de rebanhos elites, com registros genealógicos e mostrando recordes de produção em lactação única. Talvez sirva de alerta os relatos de do Dr. Hansen e seus colaboradores, que mostraram que as vacas holandesas de rebanhos da Dinamarca com maior pontuação por tipo ou caráter leiteiro foram as que apresentaram maiores problemas sanitários.  Como sugestão, os autores insinuam que estas características (tipo, conformação), em vez de receber pontuação positiva, como é comum, deveriam, na realidade, receber penalizações. Resultados e conclusões semelhantes foram relatados por outros pesquisadores europeus, na Dinamarca e Suécia. A estratégia de se utilizar cruzamentos é o método mais simples de melhorar eficiência e amenizar problemas sanitários em muitas plantas e animais, introduzindo genes favoráveis de outras raças, removendo a depressão da consangüinidade e mantendo interações gênicas responsáveis pela heterose. Cruzamentos entre raças de origem européia podem trazer essas vantagens econômicas, como tem sido mostrado por trabalhos publicados na literatura mais recente.

ANIMAL EFICIENTE PARA PRODUÇÃO DE LEITE

Os programas de melhoramento genético e seleção de raças bovinas leiteiras conseguiram ganhos genéticos que não foram acompanhados por aumentos na capacidade ingestiva desses animais mais produtivos, apesar dos crescentes aumentos do peso vivo das matrizes selecionadas para produção de leite. Com isso, animais de alto potencial genético precisam receber uma dieta com maior concentração de nutrientes, normalmente conseguido com a inclusão de grãos e subprodutos industriais, ricos em energia e proteína, principalmente. Como conseqüência, a relação concentrado : volumoso tem que ser maior para animais de maior potencial, para que esses possam mostrar desempenho compatível com seu potencial. Os ganhos genéticos conseguidos nos rebanhos leiteiros norte-americanos, da ordem de 1,8% ao ano (http://www.usda.gov/nass/aggraphs/cowrates.htm) foram conseguidos em resposta ao incremento constante na suplementação com alimentos concentrados, sendo que nos últimos 25 anos, a relação entre leite produzido e concentrado consumido pelas vacas em lactação, tem se mantido constante, isto é, 1 kg de grãos para cada 2,3 a 2,4 litros de leite produzidos (http://www.ers.usda.gov/Briefing/Dairy/Data/mprdfac.xls).

Além disso, a conseqüência da seleção de animais de maior peso adulto é o aumento dos custos de manutenção de rebanhos com matrizes cada vez mais pesadas O valor econômico negativo para peso vivo adulto é mais evidente para vacas leiteiras mantidas a pasto.  No Brasil, o grupo liderado pelo Professor Fernando Enrique Madalena, da UFMG, mostrou que, para vacas mestiças Holandês-Gir, mantidas a pasto, os pesos econômicos para seleção favoreciam muito mais a redução do peso metabólico das vacas do que a seleção para aumento da produção de leite. Mesmo para o caso de sistemas confinados, em que os animais gastam menos energia para sua própria movimentação, a seleção contínua de vacas da raça Holandesa maiores a cada geração, na América do Norte, não seria economicamente justificável.

A melhor eficiência alimentar permite manejar pastagens com um número maior de vacas de menor porte e, conseqüentemente, obter maiores produções por área pastejada. Além disso, vacas de menor peso adulto tendem a ter maior vida produtiva, melhor eficiência reprodutiva, menor incidência de problemas no período periparturiente e, conseqüentemente,  maior margem de lucro. Se forem mantidas a pasto, o gasto energético excessivo com deslocamento de vacas de peso vivo elevado, nas condições tropicais ou subtropicais no verão, é um fator limitante, de elevado peso econômico, que deve ser considerado com muito mais rigor.

Como já discutido anteriormente, a ênfase excessiva que vem sendo dada à utilização de animais de elevado potencial genético, não leva em consideração a eficiência em função da vida produtiva do animal e seus custos de manutenção, principalmente aqueles relativos aos problemas sanitários, reprodutivos e o conseqüente descarte excessivo de vacas, que demandam taxas de reposição muito elevadas, característicos dos rebanhos de elite dos Estados Unidos da América, como mostrado por levantamentos, relatórios e publicações recentes. Estes têm mostrado que nos rebanhos mais produtivos acompanhados pelo DHI, a taxa média de descarte anual é de 39,7%, com intervalo de partos de 14,5 meses e idade média das vacas do rebanho de 42,9 meses, pode-se calcular que, em média, a vida produtiva dessas vacas é de 1,7 lactação.

Outras publicações relatam que a eficiência reprodutiva dos rebanhos vem caindo ao longo dos últimos anos. Uma destas detectou elevações no número de dias abertos, que em 1976/78 eram 122 para as vacas Jersey e 124 para holandesas, aumentaram de forma não linear para 152 para Jersey e 168 para holandesas, em 1997/99. Ao mesmo tempo, o número de serviços/concepção, que era de 1,91 em 1976/78 subiu para 2,94, em 1994/96, para as duas raças.

Acompanhamentos econômicos conduzidos pelo Professor Marini, da Universidade de Rosário, em propriedades leiteiras argentinas mostram que as vacas de maior produção não garantem os maiores ingressos financeiros, medidos pela venda de leite e novilhas excedentes, pois essas vacas de maior produção são as de maior peso vivo, requerem maior consumo de alimentos, têm menor resistência a enfermidades ao se relacionar produtos e insumos ao longo de suas vidas produtivas, a eficiência tanto biológica quanto econômica será menor do que a proporcionada pelas vacas de produtividade mediana.

Uma análise da vida produtiva, reprodutiva e características de sobrevivência de vacas, de rebanhos neozelandeses, inseminadas de touros da raça holandesa de origem norte-americana ou de touros locais holandês:frísio, revelaram uma vantagem média em favor do H:F neozelandês de NZ$ 4.950,00 por fazenda, o que representa 12% de diferença no lucro por fazenda.  

Em sistemas de manejo a pasto ou em confinamento, levantamento feito recentemente nos Estados Unidos da América, mostra que a maior fertilidade das vacas da raça Jersey aliada à menor incidência de mastites, parcialmente compensa os menores retornos sobre os custos com alimentação, quando comparadas com vacas da raça holandesa. Outro levantamento recentemente publicado mostra que as vacas da raça holandesa eram mais difíceis de enxertar, apresentaram mais problemas com mastites, maiores taxas de descarte e menores escores de condição corporal que as Jersey.

Em suma, a grande eficiência fotossintética das gramíneas tropicais, do grupo C4, associada à grande disponibilidade de energia solar nas regiões tropicais e subtropicais, permitem a expressão do grande potencial produtivo das nossas forrageiras. Por outro lado, as limitações nutricionais dessas gramíneas, principalmente seus níveis elevados de parede celular (fibra), plenamente compensadas pelo grande potencial produtivo destas, devem sinalizar para a utilização de sistemas de pastejo com animais de médio potencial produtivo. Dessa forma, torna-se possível compatibilizar as demandas nutricionais desses animais com a qualidade da forragem em oferta. Essa estratégia, em função do elevadíssimo potencial produtivo das gramíneas tropicais, permitem a obtenção de elevadas produções de leite por área trabalhada, em detrimento do desempenho individual das vacas, com uma carga animal muito superior ao que se poderia esperar das forrageiras de clima temperado.

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