SÉRIE GRAMÍNEAS TROPICAIS - GÊNERO BRACHIARIA (Brachiaria brizantha cv Marandu – Capim)

HERBERT VILELA
Engenheiro Agrônomo e Doutor

1 - INTRODUÇÃO

A Brachiaria brizantha Hochst Stapf, é originária da África Tropical e África do Sul. A cultivar Marandu foi estudada, inicialmente, pelo Centro Nacional de Pesquisa do Gado de Corte (CNPGC-EMBRAPA), (MS) e, posteriormente, pelo Centro Nacional de Pesquisa Agropecuária dos Cerrados (CNPAC-EMBRAPA), (DF).

Seu porte é muito variável, bem como sua pubescência e rendimento. Desenvolve-se na maioria dos solos, inclusive ácidos (WENZL et al., 2002), mas requer um índice pluviométrico acima de 500 mm de chuva por ano. Não tolera o fogo.

A cultivar apresenta porte quase ereto, enraíza muito pouco nos nós, adapta-se a regiões mais ou menos úmidas, desde o nível do mar até mais de 3.000 m de altitude. É moderadamente tolerante à seca, desenvolve-se bem em solos não úmidos, é tolerante ao frio, resistente ao ataque de cigarrinhas, tem bom valor forrageiro e alta produção de massa verde e baixa produção de sementes.

Causas de morte de pastagem com Brachiaria brizantha cv Marandu nas regiões de Araguaína, em Tocantins e Redenção, no sul do Pará, motivaram pesquisadores da Embrapa Gado de Corte a realizarem viagens de diagnóstico, em março de 1999. Constatou-se que a morte das pastagens ocorria em áreas localizadas (reboleiras) das pastagens. Apesar de terem sido verificadas altas infestações de cigarrinhas das pastagens, bem como de cupins subterrâneos, em alguns locais, o excesso de água em áreas de depressão do terreno (condição favorável ao ataque de fungos nas raízes – principalmente do gênero Rhizoctonia), associado a um estado geral de degradação de pastagens por excesso de uso (manejo inadequado), foram consideradas as principais causas da morte de Brachiaria nas regiões visitadas.

A queima foliar pela Rhizoctonia é causada por um fungo endofítico que mostra alta correlação com outros hospedeiros de plantas, resultando em resposta fisiológica de larga aplicação em relação ao vigor da planta, estado de nutrição da planta e proteção contra outros patógenos e insetos. Fungos endofítico não patogênicos, em associação intercelular com as gramíneas completam seu ciclo, em várias partes da parte aérea da planta. Os fungos endofíticos encontrados nas plantas possuem certo número de propriedades, como tolerância a várias doenças, persistência e vigor da planta. Estudos interessantes de associações de fungos endofíticos com as gramíneas tropicais, são conduzidos no CIAT, CGIAR (Colômbia) em parcerias com a EMBRAPA, Governo  da China, Governo da Índia e Governo da Austrália.

Foram selecionados cerca de onze fungos nas espécies de Brachiaria. Através de métodos de inoculação com fungos endofíticos foi possível introduzir artificialmente certos fungos endofítiticos em vários genótipos de Brachiaria e verificaram que fungos endofíticos podem atuar como protetores de algumas espécies de Brachiaria, de certas doenças fúngicas e ataque de insetos. Conseguiram desenvolver, em situação especial, condição para eliminar totalmente os fungos endofíticos, de certas espécies de Brachiaria, e, ainda, criaram clones, geneticamente idênticos, de espécies de Brachiaria, com e sem fungos endófitos. Foram, também, obtidos em casa de vegetação, espécies de Brachiaria, totalmente tolerantes ao fungo da queima da folha (Rhizoctonia foliar) através de fungos endófitos (Kelemu et al., 2003).

O fungo endophitico - Acremonium implicatum — foi identificado pelo Grupo CIAT/JAP como Protetor Invisível das gramíneas tropicais, em especial da Brachiaria (KELEMU et al. 2002).

Em princípio, todas as pastagens contem fungos endofíticos, fungos invisíveis a olho nu, e que oferecem um enorme potencial para uso industrial, medicinal e agrícola. Os fungos endofíticos vivem em espaços intercelulares das plantas e criam uma relação de benefício mútuo. A planta oferece albergue e nutrientes ao fungo, enquanto este lhe dá vigor e resistência contra pragas, enfermidades e a seca. O gramado que cobre um campo de Golfe ou de Futebol é beneficiado pela presença destes aliados invisíveis, pois confere a ele resistência aos inimigos naturais. Contudo, esta associação parece não resultar, tão favoravelmente, para os animais em pastejo. Os animais em pastejo que consomem plantas com fungos endofíticos podem perder peso, diminuir a produção de leite ou sofrerem algum tipo de debilidade, menor fertilidade ou mesmo morrer.Antes de esclarecer tudo sobre os endófitos, as forrageiras, injustamente, adquirem a fama de venenosas.

Nas regiões temperadas, estudaram-se amplamente, estes efeitos, mas não se sabia o que ocorria na região tropical, até final de 1996. Naquele ano, uma equipe de Pesquisadores do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), com apoio financeiro do governo japonês, iniciou o estudo dos fungos endofíticos nos pastos tropicais. Graças a esse trabalho, conseguiu-se identificar, pela primeira vez, o fungo endofítico em Brachiaria, o Acremonium implicatum, que produz uma substância que protege a planta contra pragas e doenças e aumenta a resistência à seca. A semente de uma planta que contém este fungo vai gerar outra planta também com o fungo e assim sucessivamente. Os pesquisadores verificaram que os fungos endofíticos produzem algumas toxinas que atacam os fungos patogênicos e não conhecem ainda seu efeito sobre os animais em pastejo.  
Os principais atributos desta espécie forrageira são produtividade, tolerância à cigarrinha e a doenças, supressão de ervas daninhas, e sua adaptação à condição de baixa luminosidade.

O nome Marandu dado a esta cultivar significa Novidade, em Tupi Guarani. Apresenta a seguinte sinonímia segundo a região: palisade grass (Samoa), signal grass (Leste da África), St. Lúcia grass (Queensland), Ceylon sheep grass (Sri Lanka), Pasto alambe (América espanhola) Upright brachiaria (Zimbabwe), Bread grass (Sul da África), Estrela da África, Braquiarão, Brizantão (Brasil).

As cultivares de Brachiaria brizantha estão assim distribuídas na América Latina: Marandu (1984-Brazil), Gigante (1989-Venezuela), Insurgente (1989-México), Diamantes1 (1991-Costa Rica), La Libertad (1987- Colômbia), Toledo (2000-Costa Rica), Toledo grass (2002-Colômbia, CIAT 26110), MG5-Vitória (2001-Brasil), Xaraés (2003-Brasil).

2 - CARACTERÍZAÇÕES BÁSICAS

  • Nome científico: Brachiaria brizantha (A. Rich.) Stapf vr. Marandu.
  • Origem: África Tropical e do Sul.
  • Ciclo: perene.
  • Precipitação pluviométrica requerida: acima de 500 mm/ano.
  • Forma de crescimento: touceiras, semi-ereta.
  • Altura da planta: crescimento livre até 1,0 a 1,20 m.
  • Digestibilidade: satisfatória.
  • Palatabilidade: satisfatória.
  • Tolerância à seca: média.
  • Forma de uso: pastejo e eventualmente, produção de feno.
  • Tolerância a insetos: resistente à cigarrinha das pastagens.
  • Produção de forragem: 10 a 17 t MS/ha/ano.

FIGURA 1 – PLANTAS DE CAPIM BRACHIARIA BRIZANTHA cv MARANDU

3 - RECOMENDAÇÕES AGRONÔMICAS

  • Nível de fertilidade do solo: acima de média fertilidade
  • Acidez no solo: tolerante.
  • Forma de plantio: sementes.
  • Modo de plantio: a lanço.
  • Sementes necessárias: 7 a 14 kg/ha.
  • Profundidade de plantio: 2 cm.
  • Tolerância a solos mal drenados: baixa.
  • Tolerância a insetos: resistente á cigarrinha da pastagem
  • Tempo para a utilização: 90 a 120 dias após o plantio
  • Consorciação: todas as leguminosas
  • Adubação: de acordo com as recomendações técnicas determinadas pela análise de solo
  • Altitude: nível do mar até 3.000 m
  • Latitude: 30° N e S
  • Temperatura ótima: 30 a 35°C
  • Valor no controle da erosão: usada com muito sucesso
  • Dormência da semente: desprezível
  • Pureza:  mínima 40%
  • Germinação: mínima 60%

4 - COMPOSIÇÃO BROMATOLÓGICA  DO CAPIM BRACHIARIA BRIZANTHA cv MARANDU

Idade e/ou forma da forragem e  digestibilidade Composição bromatológica %
MS PB FB P Ca EE
Até 60 dias de crescimento - jovem 29,5 10,5 28,6 0,38 0,29 1,1
Após florescimento - madura 35,0 6,2 31,0 0,15 0,14 1,5
Feno 88,2 8,8  30.3 0,26 0,18 5,0
Digestibilidade (%) - jovem 66,5 -- -- -- -- --
Digestibilidade (%) - madura 46,0 -- -- -- -- --
Digestibilidade (%) - feno 50,0 -- -- -- -- --

5 - LITERATURA CONSULTADA

BOGDAN, A. V. Tropical posture and fodder plants – Grasses and legumes. London and New York, 475 p., 1977.

FAO – 2004a http://www.fao.org/ag/AGP/AGPC/doc/Gbase/Latin.htm.

FAO – 2004b http://www.fao.org/ag/AGA/AGAP/FRG/afris/es/Data/31.htm.

Kelemu, S.; Dongyi, H.; Guixiu, H.; Takayama, Y. 2003. Detecting and differentiating Acremonium implicatum: Developing a PCR-based method for an endophytic fungus associated with the genus Brachiaria. Mol. plant patho 4(2):115-118.

Kelemu, S., Dongyi, H., Guixiu, H. and Takayama, Y. 2002. A PCR-based assay for specific detection of Acremonium implicatum, an endophytic fungus in species of Brach aria.  Phytopathology .92:S41.

VALADARES FILHO, S.C. 2000. Nutrição, avaliação e tabelas de alimentos para bovinos. XXXVII Reunião Anual da SBZ, 37, Viçosa, 2000, Anais... Viçosa: 2000. 250p.

 
     
 
   
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