ADUBAÇÃO E MANUTENÇÃO DE PASTAGEM CONSORCIADA DE PANICUM MAXIMUM E LEGUMINOSAS SOB PASTEJO

1. AVALIAÇÃO AGRONÔMICA (AGRONOMIC VALUATION)

Herbert Vilela 1,
Duarte Vilela 2,
Fabiano A. Barbosa 3,
Edmundo Benedetti 4

  1. Engenheiro Agrônomo, professor visitante do Departamento de Produção Animal da Universidade Federal de Uberlândia. Belo Horizonte/MG, Brasil. vilela@agronomia.com.br e herbert@umuarama.ufu.br
  2. Engenheiro Agrônomo, pesquisador da EMBRAPA - CNPGL. Juiz de Fora/MG vilela@cnpgl.embrapa.br
  3. Médico Veterinário, M.Sc., Doutorando em Produção Animal, Escola Veterinária/UFMG. fabianoalvim@unb.br
  4. Médico Veterinário, professor titular do Departamento de Produção Animal. Univ. Fed. Uberlândia/UFU. edmundob@ufu.br

RESUMO

O trabalho foi conduzido na Região Fisiográfica do Alto São Francisco do Estado de Minas Gerais, em uma pastagem consorciada de Panicum maximum Jacq. (cv Makueni) com Stylosanthes guianensis e com Glycine wighti. O solo, durante o plantio, foi corrigido e adubado com 2,5t/ha de calcário dolomítico, 100kg/ha de P2O5 e 60kg/ha de K2O, nas formas de termofosfato e cloreto de potássio, respectivamente. Nos meses de janeiro, nos anos subseqüentes ao da formação da pastagem, procedeu-se à adubação de manutenção. Esta consistiu na aplicação, em cobertura, de 20 ou 40kg/ha/ano de P2O5 e 20 ou 40kg/ha/ano de K2O, nas formas de superfosfato simples e cloreto de potássio, respectivamente. O sistema de pastejo foi o contínuo e o ajuste da forragem-animal foi feito pelo método de carga variável. As taxas de lotações médias para os piquetes que receberam níveis zero, 20kg e 40kg/ha, foram 0,57, 1,08 e 1,54UA por hectare (1UA = 450kg peso vivo) respectivamente. A adubação de manutenção de 40 kg de P2O5 e 40 kg de K2O por hectare por ano elevou os teores médios de fósforo e potássio no solo. A cobertura vegetal da gramínea e das leguminosas diminuiu para o tratamento com nível zero, do primeiro ao último ano, de 63 para 18% e de 18 para 6%, respectivamente. Já para o tratamento com 40kg/ha de P2O5 e K2O aumentou de 63% para 72% para as gramíneas e de 18% para 19% para as leguminosas, do primeiro ao nono ano. A adubação de manutenção com fósforo e potássio aumentou a disponibilidade de matéria seca de forragem por hectare. A adubação de manutenção com fósforo e potássio influenciou a composição bromatológica da forragem aumentando os níveis de proteína bruta, cálcio, fósforo e potássio.

Palavras chave: adubação de pastagens, composição bromatológica, disponibilidade de forragem.

SUMMARY

Fertilization of Maintenance of Pastures with Panicum maximum and Leguminous under Grazing

This work was developed in Minas Gerais, Alto São Francisco region's, on pasture of Panicum maximum Jacq. (cv Makueni) with Stylosanthes guianensis and Glycine wighti. The soil was corrected, during of plantation, with application of 2,5t/ha of dolomitic limestone, and was fertilized with 100kg of P2O5 and 60kg of K2O/ha in the forms of thermophosphate and potassium chloride. The fertilizer levels consisted of the usage of 20kg or 40kg of P2O5 and 20 or 40kg of K2O/ha in the form of simple super phosphate and potassium chloride. The average stocking rate, during nine years, was 0,57; 1,08 and 1,54UA per hectare to zero, 20 and 40 levels of fertilization, respectively. The grazing was continuous and adjustment of the animal was made by a put and take method. The botanical composition of pastures varied according to the treatment used. The grasses and the legumes decreased progressively in the treatment without fertilizers the first for the last year, 63 to 18% and 18 to 6%, respectively. On the other hand, the treatment with 40kg of fertilizer increased grasses and legumes, 63 to 72% and 18 to 19%, respectively. The phosphorus and potassium fertilization's increased the available forage and nutritive value. The levels of crude protein, calcium, phosphorus and potassium increased with fertilization.

Key words: available forage, nutritive value, pasture fertilization's.

INTRODUÇÃO

A pastagem é um componente importante da produção agropecuária em todas as regiões do Brasil. Ela é a fonte quase que exclusiva de alimentação da grande maioria dos sistemas de produção de gado de corte no país. A baixa produção de espécies forrageiras e as reduzidas concentrações de minerais na forragem influenciam diretamente o desempenho do animal em pastejo. Uma das alternativas para aumentar a produção e melhorar a qualidade da forragem é o estabelecimento de pastagens de gramíneas e leguminosas tropicais em consórcio (Mesquita et al, 2002).

O potencial das leguminosas tropicais é relatado como planta forrageira de qualidade superior ao das gramíneas (Bryan & Evans, 1971; Thomaz, 1973 citados por Lourenço et al, 1998), podendo influir positivamente no desempenho animal. O insucesso da utilização de pastagens consorciadas tem sido atribuído à baixa persistência das leguminosas, quando submetidas ao pastejo prolongado, às técnicas de manejo inadequadas, à incompatibilidade fisiológica entre as duas espécies, em razão das exigências nutricionais diferenciadas, ou ainda à falta de adaptação edafoclimática (Lourenço et al, 1998).

O valor nutritivo da forragem pode ser bastante diferente para as diversas espécies forrageiras e partes da planta e, como relaciona-se com o consumo, os estudos que caracterizam as pastagens em termos de composição química da forragem são relevantes na avaliação de pastagens, pois auxiliam na indicação quanto à necessidade de suplementação para as categorias de animais (Brâncio et al, 2002).

Portanto, o objetivo do trabalho foi verificar as características agronômicas de uma pastagem consorciada estabelecida na região de cerrado e mantida com níveis de fósforo e de potássio em manutenção.

MATERIAIS E MÉTODOS

O trabalho foi conduzido na Região Fisiográfica do Alto São Francisco do Estado de Minas Gerais, em uma pastagem consorciada de Panicum maximum Jacq, (cv Makueni) com Stylosanthes guianensis e com Glycine wightii, estabelecida em um Latossolo vermelho-amarelo, textura argilosa (40% argila). O solo apresentou-se inicialmente, com 1ppm de fósforo, 39ppm de potássio, 0,65eq. mg/100cc de Ca+Mg, 0,80eq. mg/100cc de Al.

O clima da região, segundo Köppen, situa-se na faixa de C/a mesotérmico, com temperatura média do mês mais quente de 22ºC, apresentando um mês mais seco, com menos de 20mm de chuvas. A precipitação média acumulada por ano é de cerca de 1200mm.

A pastagem foi estabelecida em outubro 1990 após a derrubada da vegetação natural de cerrado. Na ocasião, foram aplicados 2500kg/ha de calcário dolomítico, 100kg/ha de P2O5 na forma de termofosfato e 60kg/ha de K2O na forma de cloreto de potássio.No plantio a lanço usou-se 15kg/ha de semente, de capim Panicum maximum e 6kg/ha de uma mistura de sementes das leguminosas estilosantes e soja perene em proporções iguais.

Durante os meses de janeiro, nos anos subseqüentes ao da formação da pastagem procedeu-se à adubação de manutenção. A adubação de manutenção, que correspondeu aos tratamentos com níveis zero de fósforo e de potássio, níveis 20kg de P2O5/ha e de 20kg K2O/ha, e níveis 40kg de P2O5/ha e 40kg de K2O/ha, aplicados nas formas de superfosfato simples e cloreto de potássio, respectivamente.

O acompanhamento dos níveis de fósforo e potássio no solo foi feito anualmente, no final do período das águas (maio), na profundidade de 0-15cm, em três amostras por piquete (Tabela 1). O delineamento experimental foi blocos casualizados com parcelas divididas com três repetições (piquetes). As parcelas (piquetes) foram formadas por níveis de P2O5 e K2O aplicados por hectare.

Tabela 1 - Cobertura vegetal das pastagens com e sem adubação de manutenção, por ano.

Ano P2O5 e K2O Capim Guiné Capim-Gordura Estilo-santes Soja Perene Ervas e Arbustos Cobertura Morta
1 0 53Ab 10Aa 11Aa 8Ab 8Ac 10Ac
20 52Ab 10Aa 11Aa 8Ab 9Ac 10Ac
40 53Ab 10Aa 10Aa 8Ab 9Ac 10Ac
3 0 35Cc 10Aa 6Bbc 5Bc 27Aa 17Ab
20 56Bb 10Aa 13Aa 6Ab 7Abc 8Bb
40 65Aa 8Bb 14Aa 7Ab 3Bd 3Cd
6 0 12Cd 10Aa 4Bc 4Cc 47Aa 23Aa
20 59Bb 10Aa 12Aa 6Bb 10Bb 3Bd
40 70Aa 1Bc 15Aa 10Aa 3Cd 1Be
9 0 8Ce 10Aa 3Bc 3Bc 51Aa 25Aa
20 59Bb 10Aa 12Aa 8Ab 10Bc 01Be
40 70Aa 1Bc 14Aa 10Aa 4Cd 01Be
Médias 0 27C 10A 6C 5B 33A 19A
20 56B 10B 13AB 7A 9B 5B
40 67A 5C 10A 9A 5C 4C
Médias dentro de cada ano, na coluna, entre tratamentos seguidos por letras maiúsculas diferentes, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste F
Médias para cada parâmetro, dentro da coluna, seguidas por letras minúsculas diferentes, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste F

Os piquetes (com 1,5ha cada) foram submetidos a pastejo com lotações variáveis, a partir de fevereiro de 1991. Cada piquete foi pastejado por três animais "testers" do grupo genético Nelore, com idade média inicial de nove meses e peso vivo médio de 170kg e número variável de reguladores. A oferta de forragem pretendida foi de 10% do peso vivo (10kg de MS disponível para cada 100kg de peso vivo por dia). Os animais testes eram substituídos por outros da mesma categoria, anualmente. Portanto o pastejo foi o contínuo com lotação variável, empregando a técnica do "put and take" (Mott & Lucas, 1952). Nesta mesma época, para estimar a forragem disponível eram coletadas 10 amostras de forragem (0,25m²) por piquete, as quais foram cortadas rentes ao solo (McMeniman, 1997). Simultaneamente, media-se a altura da planta.

Uma amostra composta mensal por piquete foi analisada para proteína, cálcio, fósforo e potássio segundo metodologias descritas por Silva & Queiroz (2002), no laboratório de Nutrição Animal do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais. Ainda, para estimar a freqüência das espécies forrageiras (cobertura vegetal) utilizou-se o método "point analysis method", uma variação em sua modalidade vertical.

As análises estatísticas dos parâmetros avaliados foram realizadas de acordo com o delineamento experimental de blocos ao acaso, com os tratamentos distribuídos em parcelas que eram constituídas pelos níveis de fósforo e potássio usados. Para a cobertura vegetal, fez-se a análise de variância, transformando-se previamente os dados em arco seno, raiz quadrada da porcentagem.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As adubações de manutenção promoveram elevação dos níveis de fósforo (P) e potássio (K) no perfil do solo amostrado em zero a 15cm: 1, 5 e 8ppm de P; 35, 50 e 70ppm de K, para os tratamentos zero, 20 e 40kg/ha/ano, respectivamente. A elevação destes níveis no solo indica que os níveis usados de adubação de manutenção proporcionaram também um melhoramento do solo, avaliado pelo fósforo e potássio.

A altura da planta permaneceu em 20cm em ralação ao solo nos três tratamentos. A disponibilidade de forragem foi de 3500, 4460 e 4600kg de matéria seca (MS)/ha para os níveis zero, 20 e 40, respectivamente (P < 0,05). Embora tenha obtido uma altura de pastejo constante entre os tratamentos a disponibilidade de forragem variou em função dos tratamentos usados. Ou seja, a adubação aumentou a área de solo coberta pela forrageira e, conseqüentemente a disponibilidade de forragem por área.

As taxas de lotações médias, durante os nove anos de estudo, para os piquetes que receberam níveis zero, 20kg e 40kg/ha, foram de 0,57, 1,08 e 1,54UA por hectare (1UA = 450kg peso vivo) respectivamente.

Os níveis de adubação usados modificaram a cobertura vegetal das pastagens ao longo dos anos (Tabela 1). Estes resultados mostram a tendência de ervas e arbustos substituírem gradativamente as forrageiras introduzidas em uma pastagem sob pastejo, quando não se procede à adubação de manutenção (Werner & Haag, 1972). Por outro lado, verifica-se que a leguminosa estilosantes teve maior participação na cobertura do que a soja perene. Este resultado pode ser devido a melhor adaptação do estilosantes ao nível de adubação usado.

A composição bromatológica (Tabela 2) foi influenciada pelos níveis de adubação de manutenção usados de forma direta. De forma direta, através da maior contribuição das leguminosas nas pastagens (19%) (Guss, 1988). Indiretamente, pelo fato das adubações usadas proporcionarem maiores teores de proteína bruta, cálcio, fósforo e potássio nas forrageiras (Haag & Dechen, 1984; Rossi et al., 1997; Carvalho et al., 1985).

Tabela 2- Composição bromatológica (%MS) parcial da forragem de pasto de gramíneas e leguminosas por tratamento e por ano.

Ano P2O5 e K2O (kg/ha/ano) Proteína bruta
(% MS)
Cálcio (%MS) Fósforo (%MS) Potássio (%MS)
1 0 11,50 0,45 0,16 2,01
20 11,60 0,50 0,20 2
40 11,30 0,58 0,22 2,15
3 0 10,50 0,41 0,15 1,80
20 12 0,54 0,23 2,10
40 12,50 0,58 0,25 2,45
6 0 8,90 0,36 0,09 1,80
20 12 0,56 0,25 2,20
40 12,50 0,62 0,30 2,95
9 0 8,60 0,37 0,10 1,70
20 11,70 0,58 0,26 2,30
40 12,40 0,63 0,31 2,95
Médias 0 9,90B 0,39C 0,12B 1,83C
20 11,80A 0,55B 0,23B 2,13B
40 12,17A 0,60A 0,27A 2,62A
Médias seguidas por letras diferentes, dentro da coluna, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste de F

CONCLUSÕES

Nas condições deste trabalho a adubação de manutenção de 40kg de P2O5 e 40kg de K2O por hectare por ano elevou os teores médios de fósforo e potássio no solo.

A adubação de manutenção com fósforo e potássio aumentou a disponibilidade de matéria seca de forragem por hectare.

O nível de 20kg de P2O5 e K2O por hectare mostrou-se suficiente para manter a pastagem, ao longo do tempo, com aproximadamente a mesma composição botânica.

O nível de 40kg de P2O5 e K2O por hectare apresentou aumentos progressivos na cobertura vegetal de forragem e diminuição de ervas e arbustos.

A adubação de manutenção com fósforo e potássio influenciou a composição bromatológica da forragem aumentando os níveis de proteína bruta, cálcio, fósforo e potássio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRÂNCIO, P.A., NASCIMENTO JUNIOR, D., EUCLIDES, V.P.B., REGAZZI, A.J., ALMEIDA, R.G., FONSECA, D.M., BARBOSA, R.A. Avaliação de três cultivares de panicum maximum jacq. sob pastejo. composição química e digestibilidade da forragem. RBZ, v.31, n.4, p.1605-1613, 2002.

CARVALHO, M.M. Melhoramento da produtividade das pastagens através da adubação. Inf. Agropec., v.11, n.32, p.23-32, 1985.

GUSS, A. Exigência de fósforo para o estabelecimento de gramínea e leguminosas forrageiras tropicais em solos com diferentes características físicas e químicas. Viçosa: U.F.V., 1988, 74p. Tese (Doutorado em Zootecnia).

HAAG, H.P., DECHEN, A.R. Deficiências Minerais em plantas forrageiras. In: Simpósio sobre Manejo da Pastagem, 3, Piracicaba, 1984. Anais... FEALQ, p.139.

LOURENÇO, A.J., BOIN, C., ALLEONI, G.F. Desempenho de bovinos em pastagens de soja perene exclusiva e green panic fertilizado com nitrogênio. Revista Bras.Zoot., v.27, n.1, p.16-22, 1998.

McMENIMAN, N.P. Methods of estimating intake of grazing animals. In: Simpósio sobre Tópicos Especiais em Zootecnia. Anais... Juiz de Fora: SBZ, 1997, p.133-168.

MESQUITA, E.E., FONSECA, D.M., NASCIMENTO JÚNIOR, D., PEREIRA, O.G., PINTO, J.C. Efeitos de métodos de estabelecimento de braquiária e estilosantes e de doses de calcário, fósforo e gesso sobre alguns componentes nutricionais da forragem. Revista Bras.Zoot., v.31, n.6, p.2186-2196, 2002.

MOTT, G.O., LUCAS, H.L. The design conduct and interpretation of grazing trials on cultivated and improved pastures. In: INTERNATIONAL GRASSLAND CONGRESS, 6. Proceedings. Pennsylvania, 1952. State College Press. p.1380.

ROSSI, C., FAQUIN, V., CURI, N., EVANGELISTA, A.R. Calagem e fontes de fósforo na produção do brachiarão e níveis críticos de fósforo em amostra de latossolo dos Campos das Vertentes (MG). Revista Bras.Zoot., v. 26, n.6, p.1074-1082, 1997.

SILVA, D.J., QUEIROZ, A.C. Análise de alimentos. Métodos químicos e biológicos. 3 ed., Viçosa: UFV, 2002, 235 p.

WERNER, J.C. e HAAG, H.P. Estudos sobre a Nutrição mineral de alguns capins tropicais. Bol. Ind. Animal, v.29 p.191-245, 1972.

2. PRODUÇÃO ANIMAL (ANIMAL PRODUCTION)

Herbert Vilela 1,
Duarte Vilela 2,
Fabiano A. Barbosa 3,
Edmundo Benedetti 4

  1. Engenheiro Agrônomo.Professor Visitante do Departamento de Produção Animal da Universidade Federal de Uberlândia. BeloHorizonte. MG. Brasil. vilela@agronomia.com.br e herbert@umuarama.ufu.br
  2. Engenheiro Agrônomo. Pesquisador da EMBRAPA - CNPGL. Juiz de Fora. vilela@cnpgl.embrapa.br
  3. Médico Veterinário, M.Sc. Doutorando em Produção Animal - Escola Veterinária - UFMG - fabianoalvim@unb.br
  4. Médico Veterinário. Professor Titular. Departamento de Produção Animal. UFU - Univ. Fed. Uberlândia. edmundob@ufu.br

RESUMO

O trabalho foi conduzido na Região Fisiográfica do Alto São Francisco do Estado de Minas Gerais, em uma pastagem consorciada de Pannicum maximum Jacq, (cv Makueni) com Stylosanthes guianensis e com Glycine wighti. O solo, durante o plantio, foi corrigido e adubado com 2,5t/ha de calcário dolomítico, 100kg/ha de P2O5 e 60kg/ha de K2O, nas formas de termofosfato e cloreto de potássio, respectivamente. Nos meses de janeiro, nos anos subseqüentes ao da formação da pastagem, procedeu-se à adubação de manutenção. Esta consistiu na aplicação, em cobertura, de 20 ou 40kg/ha/ano de P2O5 e 20 ou 40kg/ha/ano de K2O, nas formas de superfosfato simples e cloreto de potássio, respectivamente. O sistema de pastejo foi o contínuo e o ajuste da forragem-animal foi feito pelo método de carga variável. A adubação de manutenção com fósforo e potássio aumentou a disponibilidade de matéria seca de forragem e influenciou a composição bromatológica da mesma aumentando os níveis de proteína bruta, cálcio, fósforo e potássio. As taxas de lotações médias para os piquetes que receberam níveis zero, 20kg e 40kg/ha, foram 0,57, 1,08 e 1,54UA por hectare (1UA = 450kg peso vivo) respectivamente. Os rendimentos em peso vivo médio, obtidos com novilhos Nelores, por hectare e por ano, foram 155, 363 e 476kg (P < 0,05) respectivamente para os tratamentos com níveis zero, 20kg e 40kg de adubação de manutenção. Para o nono ano, os rendimentos obtidos por hectare e por ano foram 50, 350 e 560kg (P < 0,05) respectivamente para os níveis zero, 20 e 40 kg/ha de adubação de manutenção estudados.

Palavras chave: adubação de pastagens, produtividade, rendimento de peso vivo, taxa de lotação.

SUMMARY

Fertilization of Maintenance of Pastures with Panicum maximum and Leguminous under Grazing

This work was developed in Minas Gerais, Alto São Francisco region's, in Pannicum maximum Jacq. (cv Makueni) with Stylosanthes guianensis and Glycine wighti. The soil was corrected, during of plantation, with application of 2,5t/ha of dolomitic limestone, and was fertilized with 100kg of P2O5 and 60kg of K2O/ha in the forms of thermo phosphate and potassium chloride. The fertilizer levels consisted of the usage of 20kg or 40kg of P2O5 and 20 or 40kg of K2O/ha in the form of simple super phosphate and potassium chloride. The phosphorus and potassium fertilization's increased the available forage and nutritive value. The levels of crude protein, calcium, phosphorus and potassium increased with fertilization. The average stocking rate, during nine years, was 0,57; 1,08 and 1,54UA per hectare to zero, 20 and 40 levels of fertilization, respectively. The grazing was continuous and adjustment of the animal was made by a put and take method. The live weight gain, obtained with steers for hectare in a year, was for the first year 229, 369 and 376kg (P < 0.05) respectively treated with zero levels, 20kg and 40kg of fertilization. For the ninth year the gain obtained for hectare in one year was 50, 350 and 560kg for the 3 levels of fertilization studies.

Key words: bovine productive, live weight gain, pasture fertilization's, stocking rate.

INTRODUÇÃO

A área de pastagem, com espécies cultivadas no Brasil, está em torno de 115 milhões de hectares (ha), enquanto a área com pastagem nativa é de 144 milhões (Zimmer & Euclides Filho, 1997). Estas áreas abrigam cerca 167 milhões de cabeças de bovinos o que proporciona uma taxa de lotação de 0,64 cabeças por hectare e produção de cerca de sete milhões de toneladas de equivalente carcaça (Anualpec, 2003).

Contudo, os solos que estão sob esta vegetação são, em sua maioria, pobres, com um horizonte com argilas de baixa atividade, que consiste de uma mistura de caolinita, óxidos de ferro e quartzo e com um baixo conteúdo de minerais. Conseqüentemente, as forrageiras nativas existentes sobre estes solos apresentam uma baixa produtividade (Vilela et al, 1978) e as forrageiras estabelecidas, mediante correção do solo, para a formação destas pastagens, têm apresentado, em curto período de tempo, um acentuado declínio em sua produtividade (Vilela, 1998). Este curto período de utilização da pastagem cultivada está intimamente relacionado ao insuficiente fornecimento de nutrientes do solo para a espécie forrageira introduzida (Haag & Dechen, 1984; Rossi et al, 1997).

Portanto, o objetivo do trabalho foi verificar a produtividade animal de uma pastagem consorciada estabelecida na região de cerrado e mantida com níveis de fósforo e de potássio em estudo de sustentação.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi conduzido na Região Fisiográfica do Alto São Francisco do Estado de Minas Gerais, em uma pastagem consorciada de Pannicum maximum Jacq, (cv Makueni) com Stylosanthes guianensis e com Glycine wightii, estabelecida em um Latossolo vermelho-amarelo, textura argilosa (40% argila). O solo apresentou-se inicialmente, com 1ppm de fósforo, 39ppm de potássio, 0,65eq. mg/100cc de Ca+Mg, 0,80eq. mg/100cc de Al. O clima da região, segundo Köppen, situa-se na faixa de C/a mesotérmico, com temperatura média do mês mais quente de 22ºC, apresentando um mês mais seco, com menos de 20mm de chuvas. A precipitação média acumulada por ano é de cerca de 1.200mm.

A pastagem foi estabelecida em outubro 1990 após a derrubada da vegetação natural de cerrado. Na ocasião, foram aplicados 2500kg/ha de calcário dolomítico, 100kg/ha de P2O5 na forma de termofosfato e 60kg/ha de K2O na forma de cloreto de potássio. No plantio a lanço usou-se 15kg/ha de semente, de capim Panicum maximum e 6kg/ha de uma mistura de sementes das leguminosas estilosantes e soja perene em proporções iguais.

Durante os meses de janeiro, nos anos subseqüentes ao da formação da pastagem procedeu-se à adubação de manutenção. A adubação de manutenção, que correspondeu aos tratamentos com níveis zero de fósforo e de potássio, níveis 20kg de P2O5/ha e de 20kg K2O/ha, e níveis 40kg de P2O5/ha e 40kg de K2O/ha, aplicados nas formas de superfosfato simples e cloreto de potássio, respectivamente.

Os piquetes (com 1,5ha cada) foram submetidos a pastejo com lotações variáveis, a partir de fevereiro de 1991. Cada piquete foi pastejado por três animais "testers" do grupo genético Nelore, com idade média inicial de nove meses e peso vivo médio de 170kg e número variável de reguladores. A oferta de forragem pretendida foi de 10% do peso vivo (10kg de MS disponível para cada 100kg de peso vivo por dia). Os animais testes eram substituídos por outros da mesma categoria, anualmente. Portanto o pastejo foi o contínuo com lotação variável, empregando a técnica do "put and take" (Mott & Lucas, 1952). Nesta mesma época, para estimar a forragem disponível eram coletadas 10 amostras de forragem (0,25m²) por piquete, as quais foram cortadas rentes ao solo (McMeniman, 1997). Simultaneamente, media-se a altura da planta. Uma amostra composta mensal por piquete foi analisada para proteína, cálcio, fósforo e potássio segundo metodologias descritas por Silva & Queiroz (2002), no laboratório de Nutrição Animal do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais.

Os animais testes foram pesados a cada 28 dias.O ganho de peso médio diário dos animais foi obtido pela diferença entre o peso vivo final e inicial dos testers, em cada período experimental (ano), dividido pelo número de dias do período. A carga animal (kg de peso vivo por hectare) por ano foi calculada pelo somatório do peso vivo médio dos animais testers com o peso médio dos reguladores, multiplicado pelo número de dias que os últimos permaneceram na pastagem, dividido pelo número de dias do período de pastejo.

As análises estatísticas dos parâmetros avaliados foram realizadas de acordo com o delineamento experimental de blocos ao acaso, com os tratamentos distribuídos em parcelas que eram constituídas pelos níveis de fósforo e potássio usados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A altura da planta permaneceu em 20cm em ralação ao solo nos três tratamentos. A disponibilidade de forragem foi de 3500, 4460 e 4600kg de matéria seca (MS)/ha para os níveis zero, 20 e 40, respectivamente (P < 0,05). Pode-se observar que embora tenha obtido uma altura de pastejo constante entre os tratamentos a forragem disponível variou em função dos tratamentos usados. Ou seja, a adubação aumentou a área de solo coberta pela forrageira e, conseqüentemente à forragem disponível por área. Sabe-se que no complexo pastagem, a massa de forragem e a altura da planta implicam em um conceito de densidade do relvado (peso da forragem/volume) (Hodgson, 1982). Por outro lado, sabe-se que o consumo de forragens é afetado assintóticamente pela densidade da forragem e decrescentemente pelo estágio de crescimento da planta (Laca et al, 1992.) Tudo isto leva a alterar a produção animal.

A composição bromatológica da forragem foi influenciada pelos níveis de adubação de manutenção usados de duas formas (Tabela 1). De forma direta, através da maior contribuição das leguminosas nas pastagens (Guss, 1988) e indiretamente, pelo fato das adubações usadas proporcionarem maiores teores de proteína bruta, cálcio, fósforo e potássio nas forrageiras (Haag & Dechen, 1984; Rossi et al, 1997).

Tabela 1 - Composição bromatológica (%MS) parcial da forragem de pasto de gramíneas e leguminosas por tratamento e por ano.

Ano P2O5 e K2O (kg/ha/ano) Proteína bruta (% MS) Cálcio (%MS) Fósforo (%MS) Potássio (%MS)
1 0 11,50 0,45 0,16 2,01
20 11,60 0,50 0,20 2,00
40 11,30 0,58 0,22 2,15
3 0 10,50 0,41 0,15 1,80
20 12,00 0,54 0,23 2,10
40 12,50 0,58 0,25 2,45
6 0 8,90 0,36 0,09 1,80
20 12,00 0,56 0,25 2,20
40 12,50 0,62 0,30 2,95
9 0 8,60 0,37 0,10 1,70
20 11,70 0,58 0,26 2,30
40 12,40 0,63 0,31 2,95
Médias 0 9,90B 0,39C 0,12B 1,83C
20 11,80A 0,55B 0,23B 2,13B
40 12,17A 0,60A 0,27A 2,62A
Médias seguidas por letras diferentes, dentro da coluna, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste de F

As adubações usadas mostraram efeitos consistentes sobre os rendimentos em peso vivo obtidos ao longo dos anos (Tabela 2). Observa-se que os níveis 20kg/ha de P2O5 e de K2O tendem a manter os rendimentos em peso vivo em determinado patamar, os níveis 40kg/ha de P2O5 e de K2O a aumentá-los e os níveis zero a decrescê-los em relação aos obtidos inicialmente (Tabela 3). O maior rendimento em peso vivo por ano obtido neste trabalho (560kg/ha) foi superior aos obtidos por Zimmer & Euclides Filho (1997), Vilela et al (1998) e Euclides et al (1998).

Tabela 2 - Taxa de lotação e rendimento em peso vivo de pastagem submetida a três níveis de adubação de fósforo e potássio, durante nove anos.

Ano Adubação de Manutenção
Kg P2O5 e K2O/ha/ano
Taxa de Lotação UA/ha Ganho de Peso
Vivo Kg PV/ha/ano
1 0 0,90 299eC
20 1,07 369dB
40 1,29 376dA
3 0 0,65 170fC
20 1,02 339dB
40 1,42 448cA
6 0 0,46 100dC
20 1,10 365cB
40 1,60 520bA
9 0 0,26 50hC
20 1,11 350dB
40 1,82 560aA
Médias 0 0,57 155C
20 1,08 363B
40 1,54 476A
Médias com letras maiúsculas, dentro do ano, seguidas por letras diferentes, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste de F
Médias com letras minúsculas, dentro da coluna, seguidas por letras diferentes, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste de F

Observa-se que a sustentabilidade de pastagem cultivada em cerrado é precária, requerendo atenção especial às causas de degradação das pastagens principalmente, a que se refere às práticas culturais de adubação de manutenção. Verifica-se que a produção de carne por hectare por ano, ao nono ano de sua utilização, sem nenhuma adubação de manutenção, é igual à produção de carne de uma pastagem nativa (Vilela, 1978).

CONCLUSÕES

Nas condições deste trabalho a adubação de manutenção mostrou-se importante a partir do terceiro ano de utilização da pastagem.

O nível de 20kg de P2O5 e K2O por hectare mostrou-se suficiente para manter a pastagem, ao longo do tempo, com aproximadamente a mesma composição botânica e o mesmo rendimento em peso vivo por hectare.

O nível de 40kg de P2O5 e K2O por hectare apresentou tendência de aumentos progressivos nos rendimentos em peso vivo por hectare, ao longo do tempo.

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