PRODUÇÃO DE LEITE À PASTO*

I. INTRODUÇÃO

O potencial de produção de forrageiras tropicais na alimentação de vacas em lactação é relativamente alto. Quando a forragem é bem manejada, ela se torna eficiente na alimentação dos animais, podendo produzir níveis altos de leite.

Entretanto, são vários os fatores que condicionam a produção de leite em uma pastagem. Dentre eles podem se destacar a aptidão leiteira da vaca, a qualidade do pasto, a disponibilidade de pasto (pressão de pastejo), o rendimento forrageiro da pastagem (capacidade de suporte), o sistema de pastejo e a suplementação da pastagem.

A capacidade de produção de uma vaca é condicionada principalmente pelo seu potencial genético e ainda a capacidade física e sua alimentação anterior.  A qualidade do pasto é caracterizada pelo seu valor nutritivo que compõe a disponibilidade e composição bromatológica. O emprego de nutrientes para produção depende principalmente da energia e da proteína requeridos para exigência do animal.

Relações têm sido estabelecidas entre consumo de matéria seca e sua digestibilidade e composição (MILFORD & MILSON, 1955; VAN SOEST, 1965).

Por outro lado, verificaram alta correlação entre a parede celular (fibra detergente neutra) e o consumo de matéria seca (MERTENS, 1987) e aquela varia segundo o desenvolvimento da planta.

Em condições de pastejo as características da forragem como altura, relação caule-folha e densidade constituem fatores importantes para o consumo (LACA et al., 1992). Certas características do pasto como, relação caule folha, homogeneidade da forragem e altura da planta afetam o tamanho da bocada dada pelo animal.

*Herbert Vilela Eng.Agron., M.Sc. e D.Sc. Consultor do CNPq e Pesquisador da Matsuda Genética.
** Adaptado de GOMIDE J.A (1993).

II. RESULTADOS 

Numa condição de sub pastejo tem-se uma máxima produção de leite por animal, entretanto a produção por área é menor, devido à sub-utilização da área. Por outro lado o super pastejo leva a uma situação inversa, pois há uma menor disponibilidade de forragem por animal, ocorre uma menor seleção do relvado, um menor consumo e conseqüentemente uma menor produção por animal (BLASER et al., 1986).

COLMAN E KAISER (1974) relatam a produção de leite em pastagem adubada com nitrogênio (100 kg/ha/ano) sob taxas de lotação 2,47, 3,29 e 4,94 vacas/hectare, durante nove meses de pastejo. As seguintes produções por hectare foram obtidas 6.096, 7.714 e 10.218kg respectivamente para as taxas citadas.

COWAN e al. (1975) estudaram-se com vacas holandesas e em pastagem de capim green panic (Panicum maximum) consorciado com soja perene (Neonotonia wightii), quatro taxas de lotação: 1,3, 1,6, 1,9 e 2,5 vacas/ha. A produção de leite foi de 8.221kg/ha, sob a taxa de 2,5 vacas/ha. Estes resultados permitem concluir que as quatro taxas usadas estavam abaixo da capacidade de suporte da pastagem, entretanto, a soja perene diminuiu à medida que se aumentou a pressão de pastejo.

VILELA et al. (1980) verificaram fato semelhante como o siratro (Macroptilium atropurpureum) consorciado com o capim Guiné (Panicum maximum). Neste estudo compararam-se três taxas de lotação: 0,5, 1,0 e 1,5 vacas/ha. Até a taxa de 1 vaca/ha, a produção de leite foi igual. Entretanto, para a taxa de 1,5 vacas/ha, a produção foi de 6,2kg de leite por vaca, por dia. A produção máxima de leite foi de 8,8kg por animal, por dia, enquanto a menor foi de 4,6kg. Estes resultados evidenciam o comprometimento da produção de leite por animal sob condições de restrição na disponibilidade de pasto.

Segundo COWAM et al. (1977) a produção diária de leite a 4% de gordura, cresceu com a disponibilidade de pasto até 2.500kg de MS/ha. Duas disponibilidades de pasto de 1.500 a 1.800 e 2.500 a 2.800kg/ha, foram estudas (Centro Nacional de Gado de Leite), durante duas estações consecutivas com pastagem de capim setária (Setaria anceps cv Kazungula). Ela foi adubada anualmente com 100kg de nitrogênio por ha, 60kg de P205 e 50kg de K20 por ha. As taxas de lotação usadas foram de 8,2 e 2,7 vacas/ha para manter aquela disponibilidade de forragem. Não houve suplementação com concentrado para as vacas e a produção de leite foi de 10,1kg por vaca, por dia e 5.068kg por ha por estação. Não houve diferenças entre as produções.

Foi conduzido por LE e DU et al. (1977) um ensaio com o objetivo de estudar três níveis de disponibilidade de forragem (2,5, 5,0 e 7,5kg MS/100kg de peso vivo) e outro com níveis de 3,5 e 7,0kg MS/100kg de peso vivo. O primeiro ensaio foi formado por três períodos de 56 dias cada e o segundo foi de 24 semanas e o pastejo foi contínuo. Os piquetes que apresentaram 2,5, 5,0 e 7,5kg MS/100kg de peso vivo, o relvado foi mantido a uma altura de 4, 6 e 8cm. Os piquetes com menor oferta de forragem, resultaram em menor produção de leite. A maior produção de leite por hectare foi obtida quando houve menor oferta de pasto. A produção de leite por vaca, por dia foi de 16,0, 15,3 e 12,5kg.

A oferta e consumo de forragem mostraram relação curvilínea. A curva de produção de leite em função da oferta de forragem, acompanhou a curva de consumo, com uma queda de 17 a 18% quando a oferta de pasto foi reduzida de 5,0 para 2,5kg/100kg de peso vivo. 

STOBBS (1977) estudou a produção de leite por hectare e sua relação com a oferta de pasto de capim gatton panic (P. maximum). Esta pastagem foi adubada com 50kg por ha de nitrogênio, a intervalo de três semanas, totalizando 250kg do nitrogênio. Ofereceram as vacas de leite 15, 25, 35 e 55kg MS por dia. A produção de leite variou de 8,9, 9,9, 10,4 e 10,6kg por vaca por dia. A disponibilidade de folha acima de 10cm de altura foi de 4,5, 7,4, 10,4 e 16,3kg por vaca por dia.

Três pressões de pastejo correspondentes a 10 a 9, 9 a 6 e de 6 a 3kg de MS por 100kg de peso vivo, foram aplicadas á forragem de capim elefante anão (P. purpureum cv MOTT) com vacas mestiças holandesa/zebu (SILVA, 1993). Além do pasto as vacas receberam 2kg de ração concentrado por dia. Os piquetes que forneciam 3 a 6kg de MS/100kg de peso vivo, a sua vegetação apresentava menor porte (90cm), alta relação folha/caule e intensa invasão de B. decumbens. Os maiores valores de proteína e digestibilidade foram observados na vegetação dos piquetes submetidos a maior pressão de pastejo, isto é, menor oferta de pasto. As produções de leite foram de 8.940 e 12.222kg por hectare nos piquetes submetidos às pressões de pastejo mais baixa e mais alta, respectivamente.

A disponibilidade excessiva de pasto, ou seja, o sub pastejo encontrado pode resultar em menores produções devido ao acúmulo de fibra detergente neutro e ligeira queda no teor de proteína. Tal fato é comum nas gramíneas tropicais como o capim colonião (P. maximum), capim andropogon (A. gayanus) e principalmente o capim Jaraguá (Hyparhenia rufa).

MOTT (1960) e RAYMOND (1964) verificaram que na pressão de pastejo ótima tem-se a maior produção por área, como conseqüência da melhor utilização da do pasto produzido, mas a produção por animal é comprometida. O sub pastejo permite uma maior eficiência alimentar e conseqüente maior produção por animal.   A economicidade da adubação de uma pastagem depende do ótimo da pressão de pastejo dos preços do fertilizante e do leite.

COLMAN e KAISER (1974) estudaram a fertilização com nitrogênio em pastagem e sua relação com a produção de leite. Para kg de nitrogênio aplicado estimaram uma produção de 8,60 a 19,6kg de leite para vacas produzindo de 8,0 a 12,0kg por dia, de acordo com a espécie e a pressão de pastejo usada. Estas estimativas foram fundamentadas na produção de 10.218kg/ha em pastagem de capim kikuio (Pennisetum clandestinum) adubado com nitrogênio e com uma taxa de lotação de 4,94 vacas/ha. A digestibilidade da pastagem foi de 62,0% e a eficiência de utilização da pastagem de 50,0%.

VILELA et al. (1980) verificaram que substituição de pastagem por concentrado se dá na proporção de um para um (1:1) para vacas leiteiras recebendo 2,0kg de concentrado por dia. A pastagem usada foi o capim gordura (Melinis minutiflora) em condições de pastejo julgado ideal. A média de produção por vaca era de 10,6kg por dia. A resposta produtiva de concentrados na suplementação de pastagem varia de 0,50 a 0,90 (kg de concentrado/kg de leite) no período de chuva e de 0,80 a 0,95 no período de seca, dependendo de vários fatores.

III. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALLDEN, W.G., WHITTAKER, I.A. The determinants of herbage intake by grazing sheep. The interrationship of factors influencing herbage intake and availability. Austr. J. Agric.Res. Victória, v. 21, pag 755-766. 1970.

BLASER, R.E., RHAMM, R.C., FONTENOT, J.P. Forage animal management systems. Virginia, USA, 1986. 96 p. (Bulletim).

COLMAN, R.L., KAYSER, A.A.G. The effect of stocking rate on milk production for kikuiograss pasture fertilized with nitrogen. Austr. J. Exp. Agric. Animal. Husband, Victoria, v. 14, n. 67, pag. 155-160 May, 1974.

COWAN, R.T., O'GRADY P., T.M. Influence of level of concentrate feeding on milk production and pasture utilization by Friesian cows gazing tropical grass-legume pasture. Austr. J. Exp.Agric. Anim. Husband. Victoria, v. 17, n. 86, p. 373-379. Jun, 1977.

GOMIDE, J.A. Produção de leite em regime de pasto. Ver Soc. Bras. Zoot. Viçosa. v. 22, n. 4, p. 591-613. 1993.

LE DU, Y.L.P., BAKER, R.D., NEWBERRY, R.D. Herbage intake and milk production by grazing dairy cows. The effect of grazing severity under continuous stocking. Grass Forage Sci. Oxford. v. 36, n. 4, p. 317-318. Dez, 1981.

MERTENS, D.R. Proceedings intake and digestibility using mathematical models of ruminant function. J. Anim. Sci. Champing. v. 64, n. 5, p. 1548-1558. May, 1987.

MILFORD, R., MINSON, D.J. Intake of tropical pastures species. In: Int. Grassland Congress 11.1965. São Paulo. Proceedings... São Paulo. (s.n) 1965. p. 815-822. MOTT, G.O. Grazing pressure and the measurement of pasture production. In: Int. Grassland Congress 8. 1960. Reading Proceedings. Reading (s n) 1960. p. 606-611.

RAYMOND, W.F. The efficient use of grass. J. Brist. Grassl. Soc. Reading. v. 19, n. 1, p. 81-89. 1964.

SILVA, D.S. Efeito da pressão de pastejo sobre a estrutura, produtividade e persistência do capim elefante anão (P. purpureum Schum. cv. Mott) UFV. 88p. Dissertação (D.Sc.) Universidade Federal de Viçosa. Viçosa. 1993.

STOBBS, T.H. The effect of plant structure on the intake of tropical pasture variation in the byte size of grazing cattle. Austr. J. Agric. Res. Victoria, v. 24, n. 6, p. 808-819. Nov, 1973.

VAN SOEST, P.J. Symposium of factors influencing the voluntary intake of herbage relation the chemical composition and digestibility. J. Anim. Sci., Champaign, v. 24, n. 3, p. 834-844. Aug, 1965.

VILELA, H., TONELLI, L.A., REIS, W.W.C. e POSSATO, J.R. Efeito da taxa de lotação e da alimentação suplementar sobre a produção de leite durante o período da seca. Rev. Soc. Bras. Zoot. Viçosa, v. 8, n. 4, p. 679-686. 1979.

 
     
 
   
  Copyright 2009 © Portal Agronomia
Desenvolvido por Digital Pixel