A realidade econômica da pecuária bovina de corte brasileira em 2005

Fabiano Alvim Barbosa
Médico Veterinário, M.Sc. Nutrição Animal
Doutorando Produção Animal
Escola de  Veterinária – UFMG
Consultor de Projetos Agropecuários
fabianoalvim@unb.br

A competitividade do sistema pecuário barsileiro é severamente prejudicada pela sua diversidade e descoordenação. Existe um grande número de produtores pecuários, dado o seu tamanho, nível de capitalização e localização, que adotam diferentes sistemas de criação e uma grande variedade de raças.  A estabilização da economia tem colocado novos desafios e aberto novas oportunidades: de um lado, restabeleceu os mecanismos de concorrência que estavam totalmente embotados pela inflação e sua cultura; de outro lado, restabeleceu o “valor do dinheiro” e o horizonte de planejamento das empresas. Esses elementos têm forte impacto sobre o sistema produtivo, especialmente por que evidenciam as ineficiências e “gorduras” mascaradas pela inflação e pelos mecanismos de indexação (IEL et al., 2000).

O agronegócio vem se destacando sobre o crescimento total da economia brasileira mesmo neste período de baixo crescimento econômico, mantendo taxas de crescimento acima da média brasileira, contribuindo para a expansão, mesmo que pequena, do PIB brasileiro (Spolador e Fontana, 2005).

Os dados de 1989 até junho de 2005 (Figura 1) mostram que o agronegócio é responsável por aproximadamente 40% das exportações brasileiras. Deve-se destacar que a participação do agronegócio nas exportações totais nos últimos 15 anos se manteve basicamente acima dos 40%, mesmo com as mudanças cambiais ocorridas durante esses anos.

Figura 1- Participação do agronegócio nas exportações totais – 1989 a 2005
*Fonte: Spolador e Fontana, 2005.
* Dados de 2005 até junho.

Os dados da CNA/CEPEA-USP para o ano de 2005 (dados fechados até setembro de 2005) estimam uma queda de 3,38% do produto interno bruto (PIB) do agronegócio, isto é, R$ 18 bilhões a menos que o ano de 2004. O PIB do agronegócio projetado para 2005 cairá para R$ 515,9 bilhões enquanto em 2004 este valor foi de R$ 533,9 bilhões, isto é, uma redução de R$ 1,85 bilhão. No setor da pecuária a redução projetada será de R$ 750 milhões, neste mesmo período, o PIB projetado em 2005 será de R$ 64,47 bilhões e em 2004 foi de R$ 65,22 bilhões. Ocorreu uma queda acumulada anual das taxas de crescimento do PIB (janeiro a setembro/05) de 0,86% no setor primário da pecuária. Já os outros setores de insumos, indústria e distribuição apresentaram queda acumulada de 0,86%, 0,08% e 0,78%, respectivamente. Isto mostra a realidade que o produtor rural vem enfrentando decorrente da queda de preços de venda de seus  produtos (bezerro, a arroba do boi e da vaca) e um aumento dos preços dos insumos.

As análises econômicas do ano de 2004 da pecuária bovina de corte mostram que os custos operacionais efetivos (COE) aumentaram, em média, 7,87% ao ano, enquanto a variação anual da arroba de boi gordo foi de 1,49%, isto é, o preco da arroba não acompanhou a inflação e ainda, ocorreu uma perda da margem de lucro. Os componenetes destes COE que contribuiram para esta maior variação  foram adubos, material para benfeitorias, máquinas, suplemento mineral e mão-de-obra (Tabela 1).  No ano de 2005 os componentes que contribuiram em maior parcela para os COE foram: sementes de forrageiras, máquinas e mão de obra.

Tabela 1 – Variação dos preços de alguns insumos da pecuária de corte.

  Jan-Nov/04 - % Jan-Nov/05 - %
Adubos em geral 20,99 - 8,36
Sementes de forrageiras 0,71 20,76
Suplemento mineral 13,54 5,50
Medicamentos em geral 7,92 3,09
Insumos para cerca 23,60 5,29
Construções em geral 9,68 5,41
Máquinas e implementos agrícolas 20,69 16,58
Compra de bezerros - 1,18 - 5,21
Mão de obra 8,33 15,37
Insumos para reprodução animal - 0,58

Fonte: CNA, 2005, 2006a.

Os dados acumulados de janeiro a novembro de 2005 mostram uma queda na arroba de boi gordo de 9,53% (preço de São Paulo), já os COE subiram em média 6,03% e os custos operacionais totais (COT) 7,02%. Algumas regiões como Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul tiveram aumentos dos custos acima de 6% (Tabela 2). Portanto, esta queda no preço de venda e aumento dos custos de produção ocorreram também no ano de 2004 chegando a um patamar insustentável neste ano.

Tabela 2 – Variação acumulada de janeiro a novembro de 2005 dos custos operacionais efetivos (COE), custos operacionais totais (COT) e arroba de boi gordo (@).

Estados COE COT @
Goiás 3,03% 3,80% - 4,60%
Minas Gerais 7,16% 7,57% - 7,21%
Mato Grosso 7,81% 9,05% - 0,81%
Mato Grosso do Sul 6,23% 6,64% - 11,55%
Pará 6,72% 6,99% - 3,33%
São Paulo 1,59% 3,47% -6,27%
Brasil 6,03% 7,02% - 6,15%

Fonte: CNA, 2006a.

Ao analisar a situação nos anos de 2004 e 2005, de um maneira geral, ocorreu uma queda dos preços da arroba e aumento dos custos de produção, isto significa que este aumento do custo está sendo retirado da margem de lucro do produtor que já era muito estreita em 2004. Nos projetos agropecuários que temos acompanhado, em Minas Gerais, as taxas de rentabilidade no ano de 2005 ficaram em torno de 1 a 9% dependendo da região e do sistema de produção. Portanto, esta redução do lucro compromete o crescimento da atividade, e em alguns casos, podem não cobrir as despesas de depreciação comprometendo o investimento em reformas de pastagens, benfeitorias e maquinários.

Além da perda de rentabilidade ocorreu também uma queda da valorização patrimonial do rebanho, visto que os preços médios da arroba, do bezerro e da vaca acumulam uma queda anual quando comparado a média de 2004 (Tabela 3). O mercado futuro do boi gordo (BM&F) projeta o preço de R$ 60,00/arroba para outubro e novembro/06 (data base de março/06) (épocas, normalmente, de pico de preço). Assim, o mercado futuro sinaliza para uma realidade de preço próxima ao do ano passado carcaterizando um cenário de rentabilidade ainda baixa para a atividade neste ano.

Tabela 3 – Variação dos preços médioa de vaca, bezerro e arroba a prazo em São Paulo.

  Média de 2004 – R$ Média de 2005 – R$ Variação %
Vaca – cabeça 532,00 535,00 0,42%
Bezerro – cabeça 366,00 336,00 -8,35
Arroba Boi Gordo 61,90 56,00 -9,53%
Arroba Vaca Gorda 53,40 49,40 -7,49%

Fonte: FNP.

O uso das tecnologias buscando produtividade para redução dos custos fixos e aumento da rentabilidade é primordial para a pecuária bovina de corte moderna, entretanto, quando o preço de venda passa a ficar muito próximo dos custos de produção esta rentabilidade cai, diminuindo a sustentabilidade a médio prazo da atividade primária. O aumento de produtividade na bovinocultura de corte brasileira é crescente, desde a última década, mas até quando esta busca por este aumento será sustentável economicamente, visto que, o preço de venda torna-se o maior entrave no sistema de produção atual?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CNA; CEPEA-USP. Indicadores pecuários. n. 22, jan., 2005.

CNA; CEPEA-USP. Indicadores pecuários. n. 33, jan/fev., 2006a.

CNA; CEPEA-USP. Indicadores rurais. n. 66, jan/fev., 2006b.

ESPOLADOR, H.F.S., FONTANA, F.C. Exportações do agronegócio e a valorização cambial. Disponível em http://www.cepea.esalq.usp.br/ Acesso em: 20.mar.2006.

IEL, SEBRAE, CNA. Estudo sobre a eficiência econômica e competitividade da cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil. 2000.
Disponível em http://www.cna.org.br/PublicacoesCNA/EstudosdasCadeiasProdutivas/Pecuaria de corte. Acesso em: 17.ago.2003.

FNP. Boletim Pecuário. n. 593, 03 a 09 de fevereiro de 2005.

FNP. Boletim Pecuário. n. 645, 02 a 08 de fevereiro de 2006.

 
     
 
   
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