PLANEJAMENTO E ESTRATÉGIAS NUTRICIONAIS PARA AUMENTO NA RENTABILIDADE DA PECUÁRIA DE CORTE

Fabiano Alvim Barbosa, Médico Veterináro, M.Sc. Nutrição Animal, Doutorando Produção Animal, Escola de Veterinária/UFMG, fabianoalvim@unb.br

1. O CENÁRIO DO SETOR AGROPECUÁRIO BRASILEIRO

A economia brasileira tem passado por rápidas transformações nos últimos anos. Neste contexto ganham espaço novas concepções, ações e atitudes, em que produtividade, custo e eficiência se impõem como regras básicas de sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado (IEL et al, 2000). A conscientização dos pesquisadores, técnicos e produtores rurais envolvidos nesse sistema, bem como, o ajuste para este novo cenário é primordial para a competitividade da atividade.

O agronegócio tem tido papel da maior importância nas contas externas do País. Em 2003, suas exportações alcançaram US$ 30,6 bilhões, permitindo um superávit de US$ 25,8 bilhões ou 27% a mais que o saldo apurado no ano anterior. O expressivo crescimento do agronegócio elevou sua participação no PIB brasileiro, ou seja, na soma de todas as riquezas produzidas no País, para 33,8% em 2003. Em outras palavras, um em cada três reais gerados pela economia brasileira tem origem no agronegócio (Brasil..., 2004). Como mostrado na figura 1, os maiores crescimentos na pecuária ocorreram nos setores de insumos e no primário, isto é, nas propriedades rurais.

Para 2004, as perspectivas permanecem favoráveis. O saldo acumulado nos doze meses até maio/04 alcançou US$ 28,9 bilhões, contra US$ 23,3 bilhões verificados em igual período do ano anterior. A produção brasileira de carne bovina, em 2003, foi de 7,40 milhões de toneladas, com crescimento de 3,5% sobre o ano anterior. O Brasil ocupou a segunda posição entre os países produtores e assumiu a liderança mundial na quantidade exportada, com 1,1 milhão de toneladas. A receita cambial foi de US$ 1,4 bilhão (Brasil..., 2004).

Figura 1 - Variação percentual acumulada do PIB da Agropecuária divido por setores.
Fonte: CNA/CEPEA-USP, 2004

2. PLANEJAMENTO

Planejar é a palavra apropriada para se projetar um conjunto de ações para atingir um resultado claramente definido, quando se tem plena certeza da situação em que as ações acontecerão e controle quase absoluto dos fatores que asseguram o sucesso no alcance dos resultados (Alday, 2000).

Segundo Souza et al (1988) o planejamento estratégico é um instrumento elaborado para que o empresário possa visualizar sua atuação futura, sendo assim, normalmente, é projetado para longo prazo, com uma abordagem global, definindo o que produzir e o quanto produzir nos anos seguintes. Algumas etapas são importantes para estabelecer o planejamento estratégico:

2.1 Determinação dos objetivos

É o ponto principal do planejamento, com definições genéricas, como os propósitos da empresa relacionados ao ramo de atuação, pretensão futura, busca pelo lucro, segurança, prestígio, social entre outros.

2.2 Análise do ambiente externo

É necessária a busca de informações mais precisas possíveis com relação às ameaças, oportunidades e restrições no cenário nacional e mundial que possam aumentar o diminuir a rentabilidade da atividade. Fatores como preço dos commodities, juros, balança comercial, análise de mercado (oferta e demanda), estudo de tendências futuras, barreiras alfandegárias, taxas de exportações e importações, entre outras.

2.3 Análise interna da empresa

É uma análise dos recursos existentes na empresa como os físicos, financeiros, administrativos, mercadológicos, humanos. Sendo necessário levantar suas disponibilidades, necessidades, fornecedores, etc.

2.4 Geração e avaliação das metas e estratégias

Após estabelecer os objetivos e analisando o ambiente externo e a empresa, através de dados de pesquisas, de experimentação e da experiência são definidas as estratégias para alcançar as metas propostas no projeto.

Segundo Veloso (1997) citados por Barioni et al (2003) para determinação das metas alguns fatores deverão ser avaliados como:

  • recursos disponíveis na fazenda - solos, vegetação, relevo, animais, recursos hídricos, recursos financeiros disponíveis, mão-de-obra qualificada, estradas, energia elétrica, benfeitorias, etc;
  • imposições ambientais, legais e de mercado;
  • objetivos do empreendedor.

Definido qual o projeto parte-se para a sua implantação e execução das estratégias que serão executadas pelos gerentes, técnicos e funcionários da propriedade. Um ponto fundamental neste planejamento é a coleta de dados das informações de produção (técnica e econômica) levantadas, pois, a partir destas, faz-se o monitoramento comparando o planejado com o realizado. Pelo monitoramento consegue-se avaliar quais os pontos críticos do sistema e se alguma estratégia planejada não está correta, sendo assim, avalia-se a possibilidade da inclusão de uma nova estratégia alternativa que possa atender aos objetivos. Ou ainda, corrigir os erros cabíveis e continuar com a mesma estratégia.

Estas mudanças dos planos segundo Barioni et al (2003) podem ocorrer devido à:

  • modificações na área de produção (compra, arrendamento, venda, utilização para outra atividade, intensificação do sistema);
  • mudanças nas condições externas de mercado, relações de preço, nova legislação ou política agrícola;
  • circunstâncias e atitudes pessoais (aversão ao risco e carga de trabalho desejada);
  • respostas imprevistas do sistema identificadas no monitoramento.

3. PLANEJAMENTO NUTRICIONAL

O primeiro passo para iniciar o planejamento nutricional é levantar os recursos físicos da propriedade (benfeitorias, tipos de solos, espécies forrageiras, recursos hídricos, tamanho da área, topografia) e as características climáticas da região. É fundamental a planta planialtimétrica (mapa) para levantamentos do inventário, de índices de produção de matéria seca das forrageiras por área, para recomendações de correções e adubações de solos, planejamento de novas espécies forrageiras, divisão de áreas, entre outros.

Após conhecer a propriedade e as particularidades da região deve-se determinar o sistema de produção de acordo com os objetivos do proprietário, recursos financeiros disponíveis, condições ambientais e físicas, análises de mercado e externas à propriedade. O planejamento forrageiro deverá proporcionar quantidade anual adequada de forragem à demanda dos animais no sistema, seja somente por pastagens ou em sistemas mais intensificados por meio de rotação e/ou adubação, irrigação ou suplementação volumosa no cocho. A falta de informações sobre a distribuição produtiva de forragem ao longo do ano é, atualmente, a principal limitação para o planejamento de sistemas pastoris. Estas informações podem ser conseguidas por meio de:

  • experimentos avaliando o crescimento da forragem ao longo do ano;
  • modelos matemáticos de crescimento de pastagens;
  • dados locais de monitoramento da massa de forragem;
  • dados locais das taxas de lotação e desempenho animal (Barioni et al, 2003).

Estes dados auxiliam a iniciar o planejamento, entretanto, devido as inúmeras fontes de variações de um local e de um ano para outro, o monitoramento é primordial após a implantação do projeto. Metodologias para estimar a produção de forragem por métodos diretos, usando um quadrado metálico de 1m2, ou indiretos, como a estimativa visual, medidor de prato ascendente e medições de altura e densidade da pastagem devem ser utilizadas para maior precisão da informação. Outra alternativa é utilizar o monitoramento da taxa de lotação usada para estimar a demanda de forragem anual (Barioni et al, 2003).

Outro fato importante no planejamento nutricional que está intimamente ligado à demanda e ao planejamento forrageiro é a exigência nutricional do animal ao longo do ano. A exigência nutricional está em função da idade, sexo, raça, estádio fisiológico e ganho de peso projetado. Analisando a exigência nutricional com o a qualidade da forragem ao longo do ano defini-se qual a demanda de forragem e a necessidade de suplementação protéica, energética, mineral e vitamínica para atender os objetivos de ganho de peso e/ou reprodução.

Devido ao crescimento das pastagens e sua qualidade na estação seca do ano ser bem menor, torna-se necessário assumir estratégias caso não ocorra nenhuma venda de animais no final da estação das águas. Caso contrário, a propriedade não terá pastagem o suficiente para a demanda. Estas estratégias podem ser:

  • utilizar pastagem diferida, isto é, vedar parte dos pastos na época das águas para sua utilização na seca;
  • suplementação volumosa com silagens ou cana-de-açúcar;
  • suplementação de rações concentradas (cerca de 1% do peso vivo por dia).

No planejamento nutricional de sistemas mais intensivos com taxas de lotações acima de 2UA/ha deve-se utilizar tecnologias como rotação e adubação de pastagens, suplementação volumosa, suplementação concentrada e em algumas situações irrigação de pastagens e/ou culturas.

A escolha de quais estratégias utilizar no planejamento nutricional é dependente do planejamento financeiro, isto é, analisando qual a necessidade de investimento, fluxo de caixa, rentabilidade e retorno do capital investido de cada estratégia isolada ou em conjunto. Para estas simulações de planejamento as planilhas eletrônicas e softwares são importantes ferramentas para utilizar devido à maior agilidade na geração das informações para que o proprietário tome a decisão de qual o projeto assumir.

4. GERENCIAMENTO DO CUSTO DE PRODUÇÃO

Embora seja de importância fundamental para a tomada de decisão dos pecuaristas, o custo de produção é uma variável desconhecida pela imensa maioria dos produtores brasileiros. Com honrosas exceções de alguns produtores mais tecnificados, a grande maioria não tem nem como saber quanto está tendo de lucro (ou prejuízo), ou que ajustamentos podem ser feitos para reduzir custos e melhorar a rentabilidade de suas propriedades (IEL et al, 2000).

Dados do IEL et al (2000) relatam que a falta de controle de custos, apontada anteriormente, faz com que os pecuaristas baseiem-se em apenas um ou poucos parâmetros para tomar a decisão de vender os animais. Além das "regras" de preços, algumas vezes as decisões são tomadas em função de situações contingenciais. Alguns produtores vendem quando necessitam de capital de giro, enquanto outros o fazem quando não têm mais como manter os animais no pasto. A carência de controles gerenciais tem levado os pecuaristas ao uso de regras de decisão muitas vezes inadequadas no sentido de maximizar seus lucros. Isso mostra que de nada adiantaria a adoção de tecnologia moderna, caso os mesmos cuidados não fossem tomados sob a ótica gerencial.

4.1 Análise econômica e de investimentos

O sistema de custos é um conjunto de procedimentos administrativos que registra, de forma sistemática e contínua, a efetiva remuneração dos fatores de produção empregados nos serviços rurais. Tem os objetivos de auxiliar a administração na organização e controle da unidade de produção, revelando ao administrador as atividades de menor custo e mais lucrativas, além de mostrar os pontos críticos da atividade. Além disto, oferece bases consistentes e confiáveis para a projeção dos resultados e auxiliar o processo de planejamento rural para tomada de decisões futuras (Santos et al, 2002).

Toda produtividade agropecuária deve passar por um teste econômico, para verificar se a tecnologia ou o sistema de manejo empregado estaria levando a custos compensadores de produção (Guimarães, 2003).

Segundo Universidade Federal de Lavras (1999) a estimativa do custo de produção está ligada à gestão de tecnologia, ou seja, a alocação eficiente de recursos produtivos, e ao conhecimento dos preços destes recursos. O custo total de produção constitui-se na soma de todos os pagamentos efetuados pelo uso dos recursos e serviços, incluindo o custo alternativo do emprego dos fatores produtivos. Estes recursos podem ser classificados em custos fixos e variáveis, como se segue:

  • Os custos fixos são aqueles correspondentes aos recursos que não são assimilados pelo produto no curto prazo. Assim, considera-se apenas a parcela de sua vida útil por meio de depreciação. Também se incluem neste grupo os recursos que não são facilmente alteráveis no curto prazo e que seu conjunto determina a capacidade de produção, ou seja, a escala de produção. Enquadram-se nesta categoria: terras, benfeitorias, máquinas, equipamentos, impostos e taxas fixas, etc.
  • Os custos variáveis são aqueles referentes aos insumos que se incorporam totalmente ao produto no curto prazo, não podendo ser aproveitados ou claramente aproveitados para outro ciclo. Aqueles que são alteráveis no curto prazo, ou seja, durante a safra podem ser modificados. Também os recursos que exigem dispêndios monetários de custeio durante a safra, enquadram-se nesta categoria: fertilizantes, agrotóxicos, combustíveis, alimentação, medicamentos, manutenção, mão-de-obra, serviços de máquinas e equipamentos, entre outros.
  • A análise econômica é a comparação entre a receita obtida na atividade produtiva com os custos, incluindo, em alguns casos, os riscos, permitindo a verificação de como os recursos empregados no processo produtivo estão sendo remunerados e como está a rentabilidade da atividade comparada a outras alternativas de emprego de capital (Reis, 2002).

De acordo com Nix (1995) e Corrêa et al (2000), para se fazer esta comparação podem ser utilizados os seguintes indicadores:

  • Margem bruta = receitas totais - custos variáveis.
  • Renda líquida em dinheiro = receita total - desembolsos.
  • Lucro operacional = renda líquida em dinheiro - depreciações.

4.2 Análise de investimento

Outra maneira de se avaliar a rentabilidade da atividade é a análise de investimento. Uma empresa é estruturada para maximizar lucros de seu investimento. Desta forma, os critérios de investimento permitem determinar o valor de um investimento ou de um grupo de propostas de forma que se possa escolher entre elas, a partir de uma ordenação das mais lucrativas. Chudleigh (1982b) cita a taxa interna de retorno, o período de pagamento ("Payback") e o valor presente líquido (VPL) como critérios comumente utilizados para análise de investimento.

Outros indicadores financeiros que podem ser usados para se avaliar um investimento são segundo Corrêa et al (2000):

  • Retorno do capital investido = Remuneração do capital ÷ capital investido na atividade.

5. SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE BOVINOS DE CORTE

Atualmente, a pecuária de corte passa por um processo nítido de incorporação de tecnologias, em áreas produtoras de maior importância, com reflexo positivo sobre a produtividade. Observa-se nessas áreas uma mudança de atitude de parcela significativa de pecuaristas, movidos pela necessidade de obter maior eficiência produtiva, após a estabilização da moeda, que desestimulou a produção com fins especulativos e a compra e venda de gado como forma de obtenção dos lucros anteriormente proporcionados pela elevação de preços (IEL et al, 2000).

Tabela 1 - Índices zootécnicos médios do rebanho brasileiro em diversos sistemas de produção

Índices Média Brasileira Sistema
Melhorado
Sistema com
Tecnologia Média
Natalidade 60% > 70% > 80%
Mortalidade até
a desmama
8% 6% 4%
Taxa de desmama 54% 65% 75%
Mortalidade
pós-desmama
4% 3% 2%
Idade à primeira cria 4 anos 3-4 anos 2-3 anos
Intervalo de partos 21 meses 18 meses 14 meses
Idade de abate 4 anos 3 anos 2,5 anos
Taxa de abate 17% 20% 22%
Peso da carcaça 200kg 220kg 230kg
Rendimento
da carcaça
53% 54% 55%
Lotação 0,9a/ha 1,2a/ha 1,6a/ha
Fonte: Zimer e Euclides Filho (1997); observadas junto a produtores e experimentos em andamento.

Como mostra a tabela acima os pecuaristas devem estabelecer como metas a serem alcançadas o sistema com média tecnologia, e aqueles já a atigiram, devem melhorar estes números para maximizar a produtividade na propriedade.

6. PASTAGENS

A pastagem é a base da produção de bovinos de corte no país e a de custo mais baixo quando comparado com as suplementações. A área de pastagem, com espécies cultivadas no Brasil, está em torno de 115 milhões de hectares, enquanto a área com pastagem nativa é de 144 milhões destacando-se nesta categoria a predominância das Brachiarias (Zimmer & Euclides Filho, 1997; Zimmer & Euclides, 2000). Estas áreas abrigam cerca 178,6 milhões de cabeças de bovinos e produção de cerca de 7,6 milhões de toneladas de equivalente carcaça (Anualpec, 2004).

A capacidade de suporte das pastagens é bastante variável em função do solo, clima, estação do ano e espécie ou cultivar forrageira. O desempenho animal necessário ou desejado e o sistema de produção adotado têm também efeito marcante sobre a capacidade de suporte.

Segundo Zimmer & Euclides Filho (1997), o principal problema na produtividade das pastagens é a ausência ou o uso inadequado de adubação de manutenção, resultando em queda acentuada da capacidade de suporte e no ganho de peso animal nos três ou quatro anos após sua formação.

Segundo Euclides (2000), os resultados obtidos em pastagens de Panicum maximum cvs. Colonião comum, Tobiatã e Tanzânia, de Brachiaria decumbens e B. brizantha apresentam valores de ganho de peso anual diferentes (Figura 2). Nos pontos máximos, os ganhos diários foram de 500g e 580g e as disponibilidades de MSV de 1000kg/ha e 900kg/ha, respectivamente, para Brachiaria e Panicum. Desses resultados, depreende-se que os fatores que influenciam a produção de animais em pastejo, além de não serem facilmente identificados, variam com a época do ano. Dessa forma, em qualquer região, limitações nutricionais ocorrem como conseqüência da inadequação da quantidade e da qualidade da forragem disponível às necessidades do animal.

Figura 2 - Relações entre os ganhos de peso diários por animal (y) e as disponibilidades de matéria verde seca (x) em pastagens dos gêneros Panicum e Brachiaria.
Fonte: Euclides & Euclides Filho (1998).

7. USO DE TECNOLOGIAS PARA AUMENTO DA PRODUTIVIDADE

Diversos são os trabalhos de pesquisas mostrando o aumento da produtividade da pecuária de corte bovina com o uso de tecnologias como suplementação nutricional estratégica, aduação de pastagens, rotação e/ou irrigação de pastagens, melhoramento genético, controle sanitário, entre outros. Entretanto, a maioria da pecuária brasileira continua aquém de suas reais potencialidades. Será abordado a seguir algumas destas tecnologias ligadas à melhora na quantidade e qualidade nutricional da dieta para o bovino, proporcionando maior desempenho por animal e/ou por área.

7.1 Suplementação de bezerros

Robison et al (1978) citado por Silva (2000) concluíram que a energia disponível no leite é insuficiente para atender os requisitos para ganho de peso dos bezerros após o primeiro mês de lactação, o que, posteriormente, produziria um déficit que teria que ser suprido pelo meio. Considerando que o leite possui 0,75Mcal/kg, para suprir o requisito do bezerro no primeiro e segundo meses de vida seriam necessários em torno de 4,4 e 6,8kg de leite/dia, respectivamente. Para vacas zebus seria difícil suprir totalmente com o leite o requisito de energia digestível necessário do segundo mês de vida em diante (Silva, 2000).

CREEP-FEEDING

É a utilização de um cocho privativo, ao qual só o bezerro tem acesso. Estando o bezerro ainda mamando recebe um reforço alimentar com uma ração concentrada balanceada. Os fatores que afetam as respostas são a quantidade e qualidade do pasto, a produção de leite das mães, o potencial de crescimento, idade e sexo dos bezerros a desmama, tempo de administração, o consumo e tipo de suplemento. O aumento pode variar de 8 a 42kg por bezerro, como mostra os trabalhos da Tabela 2.

Tabela 2 - Efeito do creep-feeding no desempenho de bezerros

Fonte Raça Consumo kg/dia Suplemento Peso à desmama(kg)
Creep Sem
Pacola et al (1977) Guzerá 1,157 14% PB,
80% NDT
171,6 144,8
Cunha et al
(1983)
Sta. Gertrudis 1,3 17% PB,
82% NDT
180 139,5
Pacola et al (1989) Nelore 0,328 15% PB,
80% NDT
193,8 180,8
Holloway & Totusek,
(1973)
Angus e Hereford - - 226 206,5
Tarr et al
(1994)
Angus e Hereford 3,4 12,4 % PB 235,4 199,8
Sancevero
(2000)
Simental x Nelore - - 250 208
Nogueira
(2001)
Nelore 0,61 20% PB,
75% NDT
163,80 155,1
Sampaio et al (2001) Canchim 0,595 16% PB 216 207,9
Siqueira at al (2001) Nelore-Limousin,
Nelore-Belgian
Blue
0,718 16%PB 174 148,9
Benedetti et al (2002) Simental x Nelore,
Angus Nelore
1,4 19% PB,
75% NDT
256,73 224,40
Fonte: Carvalho et al (2003)

7.2 Suplementação de recria e engorda

Devido à sazonalidade das gramíneas forrageiras nos trópicos, que é caracterizada pela diminuição da produção e do valor nutritivo nos períodos secos do ano, ocorre a desnutrição nos animais criados a pasto e conseqüentemente baixo ganho de peso, nesta época. O desenvolvimento dos bovinos pode também ser comprometido com a ocorrência de veranicos prolongados. Estas fases negativas no desempenho do animal devem ser consideradas em um programa de produção de carne. O ideal seria o crescimento ocorrer uniformemente durante a vida do bovino. Devido ao desequilíbrio entre os ganhos na época das águas e da seca, é necessária a suplementação alimentar em certos períodos, para que se possa abater animais com idades inferiores à 30 meses (Carvalho et al, 2003).

O uso de suplementos múltiplos - proteína, energia, minerais, vitaminas, aditivos - na época da seca tem mostrado resultados satisfatórios evitando a perda de peso característica para animais não suplementados nesta época crítica do ano. Vários são os trabalhos que comprovam o ganho de peso de bovinos entre 0,059 a 0,740kg/cabeça/dia e consumo diário por cabeça de suplementos de 0,05 a 0,6% do peso vivo (Vilela et al, 1983; Barbosa et al, 1998; Bergamaschine et al, 1998; Paulino, 1999; Euclides, 2001; Gomes Jr. et al, 2001).

Animais, freqüentemente, respondem a proteína extra durante a estação de águas, um período em que a qualidade da pastagem, em termos de digestibilidade e conteúdo de proteína é alta, ensejando ganhos adicionais diários de 200-300g/animal (Paulino et al, 2002). Os trabalhos de pesquisas mostram ganhos de pesos médios diários de bovinos, na fase de recria, variando de 0,543 a 1,380kg/cabeça/dia, para consumos de suplementos de 0,2 a 0,5% do peso vivo. Na fase de engorda os ganhos variam de 0,671 a 1,24kg /cabeça/dia para consumos de suplementos de 0,06 e 1,2% do peso vivo os ganhos (Carvalho et al, 2003). Este ganho de peso está em função da quantidade de matéria seca disponível por hectare da forragem e de sua qualidade. Além disso, fatores ligados ao animal - raça, sexo, peso, estádio fisiológico, idade, sanidade - e o clima - temperatura, umidade relativa, entre outros, também irão influenciar o ganho de peso.

7.3 Semiconfinamento e confinamento

Os sistemas de produção de bovinos em semiconfinamento ou confinamento são estratégias adotadas na estação seca para evitar a perda de peso dos animais, fornecendo ração concentrada além do pasto seco no caso de semiconfinamento, e fornecer além da ração concentrada também o volumoso no cocho. A diferenças entre os dois sistemas relaciona-se basicamente a custo e ganho de peso dos animais. No confinamento tem-se um custo mais elevado devido à demanda por instalações, máquinas, mão de obra específica entre outros, mas em compensação o animal ganha mais peso que no semiconfinamento, desde que a dieta esteja bem balanceada (Mello, 1999). Estas tecnogias devem ser analisadas como atividades estratégicas dentro do sistema de produção, pois, proporcionam um maior desempenho animal e, conseqüentemente, a retirada de uma categoria (novilha de 2 a 3 anos, garrotes de 2 a 3 anos, ou bois de 3 a 4 anos) do sistema, causando um aumento na produtividade anual - arrobas produzidas/hectare/ano - e normalmente aumento da rentabilidade da atividade.

Segundo Mello (1999), o sistema de confinamento visa o fornecimento total da dieta do animal no cocho. As rações contêm entre 50 e 80% de volumosos na matéria seca. Os volumosos mais comuns são: silagens de capins tropicais (Panicuns sp, Brachiaria brizantha, etc.) silagem ou capineira de capim elefante, silagem de milho, sorgo, cana de açúcar, bagaço hidrolisado, etc.

Estas proproções de volumoso (50 a 80%) podem ser diminuídas em virtude de maior necessidade de ganho de peso e maior giro de bois dentro do sistema. Os ganho de peso variam de 1 a 1,6kg/cabeça/dia dependendo da genética dos animais, da quantidade de ração concentrada e da qualidade do volumoso. As dietas ficam entre R$ 1,70 a R$ 2,30/cabeça/dia e os custos totais (fixos e variáveis) da arroba produzida de R$ 50,00 a 61,00.

O semiconfinamento consiste no fornecimento de concentrado para animais que estão em pastagens diferidas. Pastagens diferidas são aquelas áreas vedadas, durante o final das águas, abril a julho, onde será acumulada uma quantidade de volumoso suficiente para os animais pastejarem por um certo período da seca. Esta técnica baseia-se na alimentação do animal no pasto (volumoso) e no cocho (ração farelada). A ração é distribuída na proporção de 1 a 1,5% do peso vivo dos animais e o pasto diferido, se estiver com uma boa quantidade de massa, suportará 1,5 a 3 cabeças/ha, durante 90 a 120 dias. Esta técnica tem algumas vantagens como a utilização de pouca estrutura e pouca mão de obra (Mello, 1999).

O ganho esperado estará entre 500 a 900g/cab/dia, variando de acordo com a genética e condição corporal do animal, qualidade da massa diferida e clima, entre outros fatores. As perdas por pisoteio e chuvas fora de época são as mais importantes, pois com a chuva, parte da pastagem pode apodrecer, diminuindo a lotação da área e o ganho de peso dos animais (Mello, 1999).

7.4 Suplementação de matrizes

Como mostrado na tabela 3, as novilhas podem chegar à concepção aos 14 meses de idade, com uso de mistura múltipla (40% PB), com um consumo de 500g/cabeça/dia, durante a estação seca, reduzindo sua idade ao primeiro parto, e aumentando a produtividade (bezerros nascidos/ano) do sistema.

Tabela 3 - Influência da mistura múltipla, na época da seca, no ganho de peso e desempenho reprodutivo de novilhas de corte

- ½ Limousin
½ Tabapuã
½ Santa Gertrudis
¼ Limousin ¼ Tabapuã
Ganho médio diário - 9 aos
14 meses de idade (kg/cabeça)
0,559 0,526
Peso aos 14 meses idade (kg) 321 331
% animais inseminados 91,43 98,33
% animais cheios 80 86,66
% animais cheios na 1a. IA 75 69,23
Índice de serviço - doses 1,44 1,7
Fonte: Adaptado Graça & Duarte, (1998)

As pesquisas relatam que, mesmo durante a época das águas, a suplementação de novilhas com mistura múltipla propicia ganhos adicionais, que variam de 0,07 a 0,2kg/cab/dia. Isto significa que a novilha atingirá seu peso, à puberdade, mais cedo.

A categoria de novilha gestante, na época da seca, deverá receber uma mistura múltipla com consumo variando de 0,05 a 0,1%, para que possa parir em condições adequadas para amamentar o bezerro e retornar ao cio, rapidamente (Carvalho et al, 2003).

Leite et al (1994) citado por Paulino et al (2001) trabalharam com matrizes em estação de monta de agosto a outubro aumentando % de prenhês em cerca de 15 pontos percentuais quando suplementaram com uma mistura múltipla com consumo médio de 533g/cab/dia. Os grupos sem suplementação tiveram índices de 53,33 e 55,55% enquanto o grupo suplementado foi de 68,42%.

7.5 Adubação de pastagens

A degradação das pastagens é um dos maiores problemas da pecuária brasileira, por ser esta desenvolvida basicamente a pasto, afetando diretamente a sustentabilidade do sistema produtivo. Considerando a fase de recria e engorda de bovinos, a produtividade de carne de uma pastagem degradada está em torno de 2 arrobas/ha/ano, enquanto em uma pastagem em bom estado pode atingir, em média, 16 arrobas/ha/ano (Kichel & Kichel, 2002).

De acordo com Corrêa et al (2000), baseados em dados de pesquisas realizadas no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte - Embrapa, é possível manter uma capacidade de suporte de até 1,4 unidade animal (UA) por hectare na seca, utilizando adubação de manutenção a cada três anos. Estes valores estão de acordo com os dados obtidos no levantamento feito por Zimmer & Euclides Filho (1997) e Euclides (2002). Euclides et al (1997) estudaram a recuperação de pastagens de Panicum maximum com aplicação de calcário, fósforo e potássio durante a formação, mas sem adubação de manutenção. Os resultados mostraram que a produtividade caiu do primeiro para o terceiro ano em sistema de pastejo contínuo. Essa redução de produtividade se deve ao fato de que não foi realizada adubação de manutenção (Kichel & Kichel, 2002).

Tabela 4 - Médias das taxas de lotação, ganhos por animal e por área em pastagens de Andropogon gayanus cv. Planaltina, Brachiaria decumbens cv. Basilisk, B. brizantha cv. Marandu e de Panicum maximum cvs. Colonião, Tobiatã e Tanzânia, sob diferentes adubações no estabelecimento

Pastagem Classe de solo Adubação estabelecimento kg/ha Taxa de lotação UA/ha Ganho de peso vivo Referências
g/cab/dia kg/ha/ano
Andropógon Marandu LVE Sem 1,1 0,7 370 450 142 148 Nunes (1980)
Andropógon Marandu LV 2000 calcário 500 supersimples 100 KCl 40 microelementos 1,1 1,1 500 390 310 242 Andrade* (1986)
Marandu LVE Sem 1,4 1,8 357 273 290 320 Bianchin (1991)
Decumbens Marandu Colonião Tobiatã Tanzânia LVE 1.000 calcário 350 supersimples 100 KCl 40 microelementos 1,4 1,3 1,2 1,4 1,3 380 395 420 450 520 345 345 325 415 445 Euclides et al. (1993a, b)
* Comunicação pessoal Fonte: Euclides, 2000.

7.6 Rotação de pastagens

Os diferentes métodos de manejo de pastagens podem ser agrupados, basicamente, em três sistemas: contínuo, rotacionado e diferido. As opiniões sobre qual é o melhor sistema de utilização das pastagens são numerosas e divergentes, principalmente com relação às alternativas pastejo contínuo e pastejo rotacionado. Poucos experimentos comparando sistemas de pastejo têm sido conduzidos em regiões tropicais (Euclides, 2000).

Ainda, segundo Eculides (2000), diversos estudos têm mostrado efeito significativo da pressão de pastejo sobre o desempenho animal independente do sistema de pastejo utilizado. Um elemento comum nesses experimentos tem sido a interação entre a taxa de lotação e o sistema de pastejo. Com taxas de lotação de leve a moderada o desempenho animal em pastejo contínuo pode ser igual ou superior ao obtido em pastejo rotacionado. Por outro lado, o pastejo rotacionado favoreceria o desempenho animal em pastagens onde utilizam taxas de lotação mais altas. Como exemplo, cita-se a produtividade de B. brizantha cv. Marandu, que, quando sob pastejo rotacionado e adubação nitrogenada, foi 50% maior do que aquela obtida em sistema de pastejo contínuo sem aplicação de nitrogênio. Da mesma forma, acréscimos de 75% e 100% foram observados em pastagens de P. maximum cv. Tanzânia, submetidas a pastejo rotacionado e adubação nitrogenada de 50kg e 100kg de nitrogênio/hectare quando comparado com pastagens da cv. Tanzânia, em pastejo contínuo e sem o uso de fertilização nitrogenada.

Tabela 5 - Médias das taxas de lotação, dos ganhos de peso por animal e por área em pastagens de Panicum maximum cvs. Tanzânia, Mombaça e Massai.

Pastagem Taxa de lotação UA/ha

Ganho de peso g/cabeça/dia

Ganho PV
kg/ha/ano

seca águas seca águas
Mombaça + 50 N 1,0 3,0 130 570 700
Massai + 50 N 1,1 3,2 10 400 620
Tanzânia + 50 N 1,0 2,9 140 615 725
Tanzânia + 100 N 1,1 3,2 125 635 820

Fonte: Euclides (2000)

Continua...

 
     
 
   
  Copyright 2009 © Portal Agronomia
Desenvolvido por Digital Pixel