SILAGEM DE GRAMÍNEA (CAPIM) TROPICAL

Herbert Vilela*

I. INTRODUÇÃO

O desenvolvimento da atividade pecuária para alcançar níveis mais produtivos, tem levado os pesquisadores à procura de soluções para atender a demanda crescente de alimento volumoso, durante o período de estiagem (seco).

Desta procura têm surgido muitas opções: produção de silagem e feno de excedentes de pastagens (verão), plantio de áreas com espécies forrageiras, cana-de-açucar, capim elefante (tradicionais capineiras), milheto, girassol e com outras espécies mais nobres como o milho e o sorgo.

Destas opções, a que vem alcançando destaque entre os pecuaristas é a produção de silagem de excedentes de capins das pastagens cultivadas durante a estação de verão (chuvas). Normalmente, os produtores vedam alguns piquetes em suas propriedades, nos meses de maior crescimento das forragens e ensilam esta sobra. A silagem obtida tem apresentado como atrativo, o seu baixo custo de produção. Outro fator que tem induzido o produtor a optar pelo uso desta prática é o fato de que estas propriedades já dispõem de pastagens formadas e de estruturas que permitem este tipo de manejo. Entretanto, os resultados alcançados tem sido variáveis e muitas vezes insatisfatórios, principalmente, devido à falta de maiores informações e orientação técnica.

O objetivo deste trabalho é discutir o uso de gramíneas tropicais tradicionais para produção de silagem, suas vantagens e limitações.

II. PRODUÇÃO DE FORRAGEM DE ESPÉCIES TROPICAIS

A obtenção de forragens de alto valor nutritivo para a alimentação animal, constitui um dos objetivos básicos a serem alcançados. No entanto, no caso de ensilagem, há que se aliar tal preensão à produtividade por área da forrageira escolhida, pois caso contrário, seu uso prático se inviabiliza.

Entre as gramíneas tropicais (Quadro 1) merece destaque o Pennisetum purpureum Schum, suas variedades e seus híbridos, pelo seu potencial de produção por área, o que o diferencia de outras espécies, seja para corte e fornecimento direto (CARVALHO, 1985) ou seja para a produção de silagem devido a certas particularidades (LIMA, 2000).

Quadro 1 - Produção de matéria seca de seis gramíneas tropicais.*

Espécie Forrageira Produção hectare por ano
Pennisetum purpureum 50
Panicum maximum 25,8
Brachiaria brizantha 26,5
Brachiaria decumbens 20,3
Brachiaria ruziziensis 33,5
Cynodonn lemfluenis 28,3
* FARIA e REIS (1996). Eng. Agrônomo, M.Sc. e D.Sc. Pesquisador Matsuda Genética.

Verifica-se, pelo Quadro 2, que as produções de matéria seca do capim elefante é variável, devido a fatores como suas variedades, seus híbridos, níveis de adubação, idade da planta, número de cortes e número de anos após plantio.

Quadro 2 - Produção de matéria seca (t/ha) de variedades, cultivares e híbrido do capim elefante.

Variedades, cultivares e híbrido Produção de matéria seca (t/ha)
1 2 3 4 5
Mineiro 20        
Cameroon     36,8    
Vruckwona     34,6    
Napier       11,2  
Taiwan A143       43,1  
Taiwan A146       50,3  
Porto Rico       27,4  
Mercker       21,2  
Paraíso         50,2
GOMIDE et al.,1974, PEDREIRA et al., 1975, ALCÂNTARA et al., 1980, PEDREIRA E MATTOS, 1982, VILELA et al., 1998.

No que se refere aos carboidratos solúveis em água, tem sido enfatizado que as gramíneas tropicais possuem teores baixos (CATCHPOOLE e HENZEL, 1971) os quais seriam insuficientes para confecção de silagens láticas. Estes valores devem ser superiores a 16% na matéria seca ou > 4% na matéria verde.

Por outro lado, a disponibilidade de carboidratos não estruturas e solúveis em água, de uma forragem depende da espécie forrageira (Quadro 3), sua relação caule/folha, estádio de maturidade, densidade do plantio, fertilização nitrogenada, etc.

Quadro 3 - Carboidratos solúveis e matéria seca de seis gramíneas tropicais*.

Espécie forrageira Carboidrato solúvel (%) Matéria seca (%MS)
Andropogon gayanus 6,30 39,70
Brachiaria decumbens 6,80 28,60
Panicum maximum 6,25 28,80
Hyparhenia rufa 5,94 22,66
Pennisetum purpureum 11,44 13,46
Pennisetum hybridum** 18,10 17,16
* TOSI, 1973. ** VILELA, 2000.

III. FASES DO PROCESSO DE ENSILAGEM

1. Primeira Fase:

Na fase I (fase aeróbica) técnicas adequadas de carregamento do silo ajudam a minimizar as perdas como conseqüência da quantidade de oxigênio presente entre as partículas de forragem no silo. Boas práticas de colheita (ajuste das máquinas), principalmente aqueles relacionados com o tamanho da partícula da forrageira a ser ensilada (partículas > 1,5cm, participando com 15%), combinada com bom rendimento (distribuição de camadas e compactação) minimizam as perdas de carboidratos solúveis através da respiração no campo e no silo. A densidade da silagem obtida é uma junção de compactação, de tamanho da partícula e de porcentagem da matéria seca da forrageira.

2. Segunda Fase:

Na fase II (fase anaeróbica) ela é uma conseqüência do poder tampão, da disponibilidade de carboidratos solúveis, da presença de bactérias láticas e da porcentagem adequada de matéria seca na forragem; da anaerobiose do meio.

3. Terceira Fase:

Na fase III ocorre a estabilização do material. Nesta fase o pH estará em torno de 3,8 a 4,2 e a temperatura do material normal é a ambiente.

Figura 1 - Seqüência de fases no silo para uma boa fermentação.

IV. OCORRÊNCIA BIOQUÍMICA EM CADA FASE

1. Fase aeróbica:

a. Atuação de proteases da forrageira (pH > 60): Atividades de proteases Proteínas amônia (NH3) (+ redução de proteína)

b. Presença de oxigênio (O2): Respiração da planta, crescimento de fungos e bactérias aeróbicas. Respiração C6H12O6 + O2 6H2O + CO2 + 674kcal Consumo de açucares (perda de energia) Aquecimento da silagem (> 38ºC => Reação de Maillard => escurecimento da silagem e transformação de açúcares e aminoácidos em produtos não digestíveis). (++ perda de energia)

c. Ação de coliformes: C2H5OH + O2 CH3COOH + H2O Álcool Ácido acético (++ perda de energia) (Fermentação lática => queda do pH => coliformes deixam de atuar) +++ perdas totais acumuladas de proteína e de energia como conseqüências da perdas por proteólise, por fermentação e por ação de coliformes.

d. Final da fase aeróbica:

Consumo total do oxigênio: quanto melhor a compactação e a vedação e mais rápido o enchimento do silo, menor será a extensão da fase aeróbica.

2. Fase anaeróbica (fermentativa):

a. Primeira etapa: pH > 5,0 - Bactérias heterofermentativas açúcares => ácidos láticos Ácido acético, ácido propiônico Etanol, manitol, CO2, calor

  • Atuação das proteases Proteína => amônia (redução de proteína) Perda de energia e proteína. paralelamente pode haver fermentação butírica.
  • Condições propícias para a fermentação butírica: Alta umidade, pH > 4,50 e temperatura de 20º a 45ºC.

b. Clostridium (deterioração da silagem): - Proteases Açúcares e lactato => ácido butírico + CO2 + H2O Proteína => aminoácidos NH3 + CO2 + ácido acético

  • Ácido iso-butírico e outros ácidos Aminas tóxicas (b-alanina, putrecina, ácido g-aminobutírico, cadaverina, triptamina, tiramina e histamina). Perda de proteína e energia da silagem escura e cheiro de podridão.

c. Segunda etapa - homofermentativa: Bactérias homofermentativas pH 4,0-5,5 Glicose => ácida lático As proteases não atuam em pH < 5,0.

* Não há perda de proteína.

  • Bactérias envolvidas no processo homofermentativo: Lactobacilo plantarum, Lactobacillus sp., Pediococcus sp., Streptococcus (Enterococcus) faecium.

Uma grande população de bactérias homofermentativas no início do processo de fermentação irá reduzir rapidamente o pH da silagem, evitando as fermentações indesejáveis e as perdas de energia e proteína.

V. PERDAS ENVOLVIDAS NO PROCESSO DE ENSILAGEM

Através de diferentes processos têm-se diferentes tipos de perdas com os respectivos agentes causais. No Quadro 4, tem-se uma tentativa de apresentar estas perdas.

Quadro 4 - Processos e respectivas perdas, tipos de perdas e agentes causais*.

Processo Característica
da perda
Perda (% MS) Agentes causais
Respiração Inevitável 1-2 Enzimas da Planta
Fermentação Inevitável 2-4 Bactérias
Efluentes Evitável 0-7 Água (% MS)
Fermentações
secundárias
Evitável 0-5 % MS, ambiente silo
Aerobiose no silo Evitável 0-5 Vel. Carregamento,
Densidade e Vedação
Aerobiose na descarga Evitável 0-15 Manejo
Total   3-18  
*BOVIPLAN Consultoria Agropecuária, 1995.

VI. FATORES LIMITANTES PARA O USO DE GRAMÍNEAS TROPICAIS

1. Poder tampão da forrageira:

O Poder Tampão das forrageiras tropicais é relativamente alto. Para exemplificar, o poder tampão é de 3,5g de ácido lático/100g de matéria seca na forragem de milho (valor muito baixo) até 7,4 na forragem de alfafa que é um valor muito alto (NUSSIO, 2000). O poder tampão está em função da quantidade de ácidos orgânicos presentes na forragem. Os ácidos orgânicos são o ácido málico, ácido cítrico e ácido aspártico principalmente, podendo também estar presente o ácido oxálico. Estes ácidos agem com efeito tamponante, impedindo a queda do pH da massa ensilada (inibidor da ação do ácido lático). Estes ácidos estão presentes em maiores quantidades nas gramíneas tropicais pelo fato das mesmas apresentarem o ciclo alternativo da fotossíntese de Hatch e Slack, das plantas do grupo C4. Estes valores variam de 3,5 a 4,5.

2. Nível de carboidrato da forrageira:

O nível de carboidrato na forragem a ser ensilada é afetado por fatores como (LIMA, 2000):

a. Radiação solar no dia de corte: Dias ensolarados (sol pleno) provocam uma maior deposição de açucares na forragem do que dias nublados. Esta variação é da ordem de 2 a 3 unidades porcentuais para a mesma espécie de forrageira entre dias nublados e com sol pleno.

b. Horário de corte: Os níveis de açucares, na mesma espécie de forrageira, são maiores no final do dia (17h) do que pela manhã. Esta variação pode alcançar valores de 2 unidades porcentuais.

c. Extensão do período de emurchecimento: O emurchecimento por período muito longo (> 24h) reduz o conteúdo em carboidratos da forragem a ser ensilada. Esta redução pode alcançar valores de 3 a 4 unidades, dependendo da área de exposição do material picado.

d. Exposição á chuva no campo: A chuva lixiviará os carboidratos e aumenta a respiração das células.

e. Compactação da forragem: Havendo um a compactação satisfatória conseqüentemente, reduz a fase aeróbica e portanto menor será a perda de açúcar por respiração.

f. Fechamento do silo: Velocidade no carregamento e fechamento do silo. Mais rápido se obtém a anaerobiose, resultando em menor perda de açucares através da respiração. As concentrações típicas de carboidratos em gramíneas tropicais ensiláveis deveriam ser de aproximadamente 17% na matéria seca. Quando se tem valor de 2% de carboidratos solúvel na matéria orgânica da forragem, fatalmente obter-se-á uma silagem escura, com alto teor de ácido butírico e baixo valor nutritivo. Este valor corresponde a menos de 14% de carboidratos solúveis na matéria seca.

3. Teor de matéria seca da forrageira:

Forrageiras muito tenras (< 15% MS) dificilmente terão nível satisfatório de carboidratos solúveis para se obter uma fermentação adequada. Teoricamente uma forrageira com 15% de MS deveria conter pelo menos 20% de carboidratos solúveis. Entretanto, tem-se obtido silagens com características satisfatórias com 17,5% de MS e 18,67% de carboidratos solúveis (VILELA, 2000). Outros com 24% de MS e 11,44% de carboidratos solúveis (TOSI, 1973). Verifica-se pela Figura 2, o efeito do teor de matéria seca da forragem a ser ensilada sobre as perdas totais da silagem obtida.

Figura 2 - Perdas de MS durante a colheita e armazenamento relacionados à MS da forragem na colheita.

Porcentagem de MS da forragem, quando colhida

4. Coeficiente de Fermentação:

O coeficiente de fermentação de uma forragem é determinado pelo seu teor de carboidrato solúvel, seu poder tampão e pelo teor de matéria seca. Para esta determinação tomam-se os valores como exemplo:

Capim Elefante : - Carboidratos solúveis (% MS) = 18,67 - Poder tampão (g de ácido lático/100g de MS) = 3,00 - % de MS no corte = 17,00 - Coeficiente de Fermentação = MS (%) + 8 x CHO/PT - Coeficiente de Fermentação = 17 + [(8 x 18,67)/3,0] = 17 + 48 = 65

Capim elefante Cameroon: - Carboidratos solúveis (% MS) = 11,17 - Poder Tampão = 3,92 - % de MS no corte = 24,00 - Coeficiente de Fermentação = 24 + [(8 x 11,17)/3,92] = 24 + 22,79 = 46,79

Teoricamente, ambas forrageiras estão aptas para produzir uma silagem com boa fermentação lática, pois o valor inferior de coeficiente de fermentação é de 35.

Entretanto, na prática para se obter a forragem de capim elefante (Pennisetum purpureum Schum) com teor de matéria seca adequada para ensilar, o estádio de desenvolvimento da planta (maturação) tem que se encontrar em estádio de crescimento bem avançado. Tal situação é incompatível com a obtenção de silagem de valor nutritivo aceitável. Portanto, a forrageira deverá ser ensilada quando nova, época em que a mesma apresenta níveis satisfatórios de proteína e energia (NDT). Nesta situação, o alto teor de água, que de há muito foi correlacionado como indicador de silagem de baixa qualidade, ou seja, níveis altos de ácido butírico , bases voláteis e amônia (LAVEZZO, 1990).

Finalmente para maximizar a fermentação lática deve lançar mão de técnicas e/ou produtos com objetivo de contornar o efeito do baixo nível de matéria seca da forragem a ser ensilada.

VII - TÉCNICAS E PRODUTOS UTILIZADOS NA ENSILAGEM DE GRAMÍNEA TROPICAL

1. Emurchecimento da Forragem:

Recomendável para forragem com menos de 18% de MS. Neste caso, se não houver a remoção da água, haverá redução dos efeitos preservativos das fermentações ácidas primárias (ácido lático) e não ocorrerá valor de pH entre 3,8 e 4,2, que prevenirá o crescimento das bactérias do gênero Clostridium.

Para gramínea tropical foi relatado o decréscimo no poder tampão ao ácido lático de 44,9 para 35,73mg/g MS, quando a forragem com 18% de matéria seca foi submetida ao tempo de emurchecimento de 8 horas (TOSI, 1973).

Para outra gramínea tropical (VILELA et al, 2000) com 17,50% de matéria seca, observaram efeito sobre o teor de matéria seca (25,6% MS), o teor de ácido lático e o poder tampão da forragem quando submetida ao tempo de emurchecimento de 6 horas.

Como conceito geral, tem-se que, reduzindo a umidade das plantas forrageiras, através do emurchecimento, obtém-se aumentos na eficiência de preservação da silagem (LAVEZZO, 1990).

De modo geral pode-se concluir que o teor de matéria seca da silagem não altera diretamente o consumo pela redução da umidade, mas sim indiretamente pela modificação das fermentações no silo. Somente 16% das variações de consumo é explicado pelo teor de MS da forragem.

Pode-se observar (Quadro 5) o efeito de emurchecimento sobre o teor de matéria seca, de carboidrato solúvel, ácido lático e digestibilidade "in vitro" da MS da silagem de capim elefante Mineiro.

Quadro 5 - Efeito do tempo de emurchecimento sobre a qualidade da silagem de capim elefante.

Paramêtros Tempo de Emurchecimento (horas)
0 6 30 54
MS (%) 22,7 36,9 46,8 71,5
CHO solúvel (% MS) 0,51 0,72 0,77 0,92
Ácido Lático 1,10 1,80 2 0
DIV MS 41,20 43,50 50,50 50,70
*VILELA e MILKINSON, 1987

2. Adição de materiais com alto teor de matéria seca.

a. Fenos e Palhadas.

Com o intuito de aumentar o teor de matéria seca da forragem tropical que apresenta baixo teor nesta quando seu valor nutritivo é alto, tem sido usado alguns tipos de fenos (Quadro 6). Além dos fenos, tem-se também usado palhadas de sorgo e soja, polpa de café, sabugo de milho moído e outros, sendo que normalmente, as silagens resultantes são de discutível valor nutritivo.

Quadro 6 - Efeito da adição de fubá, fenos, palhas e emurchecimento sobre a qualidade da silagem de capim elefante*.

Tratamento MS (%) PB (% MS) pH Ácido lático Ácido butírico
Testemunha 19,20 3,50 4,4 6,90 0,11
Capim + 20% Milho 32,80 7,30 4,3 4,70 0
Capim + 15%
Capim Rhodes
28,60 4,10 4,2 5,30 0
Capim + 15%
Palha de.Arroz
29,40 3,90 4,3 4,40 0
Capim +
15% Feno de soja perene
37,30 8,10 4,4 3,50 0
Capim moído +
emurchecimento (4hs)
35,00 3,80 4,5 5,10 0
Capim integral
emurchecido (8hs)
28,80 3,90 4,5 4,60 0
*CORSI et al, 1971.

b. Polpa de Laranja e Cama de Frango.

Com o objetivo de aumentar o teor de matéria seca da forragem de gramínea tropical pode-se lançar mão de alguns produtos que também contribuem para melhorar a qualidade da silagem obtida bem como seu valor nutritivo.

Com polpa de laranja (FARIA et al., 1972) verificam que a adição de 5 a 20% resultou em aumento linear nos teores de matéria seca, de carboidratos solúveis e de ácido lático.

Com polpa de laranja ou polpa cítrica os melhores resultados parecem ser com as silagens de gramíneas tropicais com 5 a 10% de polpa cítrica.

Ainda, com o propósito de verificar o efeito da adição de cama de frango à forragem verde de gramínea tropical, fez-se um estudo (Quadro 7) envolvendo seis níveis de adição sobre os parâmetros de qualidade da silagem e seu valor nutritivo.

Quadro 7 - Efeito da adição de níveis crescentes de cama de frango à forragem de capim elefante sobre a qualidade e valor nutritivo da silagem obtida*.

Parâmetros Níveis de Cama de Frango
0 5 10 15 20 25
MS (%) 20,7 22,7 26,3 28,8 32,6 33,3
PB  (%) 6,3 10,7 12,4 14,7 14,1 16
Ácido Lático 6,4 3,6 5 4,9 3,7 4,5
CHO solúveis 1,2 1,3 1,3 1,5 2 1,9
DIV MS (%) 26,1 26 26,7 29,8 31,2 31,9
Ganho diário 0,060 0,380 0,476 0,316 0,478 0,197
*LAVEZZO e CAMPOS, 1978.

c. Outros Produtos.

  • Bagaço de cana-de-açúcar tem efeito positivo sobre o aumento do teor de matéria seca da forragem ensilada mas reduz acentuadamente o valor nutritivo da silagem obtida (TOSI et al., 1989, LAVEZZO et al., 1992).
  • Parte aérea da mandioca: na forma de feno da parte aérea a melhor inclusão foi de 25% enquanto na forma de farelo da parte aérea a melhor inclusão foi de 5%, com melhor silagem e melhor valor nutritivo.(CARVALHO, 1984 e 1985).

3. Aditivos na ensilagem de gramínea tropical:

Segundo McDONALD (1981) os aditivos de silagens podem ser classificados em: - estimulantes da fermentação (culturas bacterianas e fontes de carboidratos solúveis); - inibidores da fermentação (ácido fórmico e outros); - inibidores da deterioração aeróbica (ácido propiônico); - nutrientes: muitas substâncias relacionadas como fontes de carboidratos podem ser enquadradas nesta categoria.

4. Aditivo Inoculante Bacteriano:

a. Característica do aditivo inoculante (McDONALD, HENDERSON e HERON, 1991): - conter bactérias láticas: Lactobacillus plantarum, Lactobacillus sp., Streptococcus faecium, Pediococcus sp.; - crescer rapidamente dentro de uma larga faixa de umidade, temperatura e pH; - produzir ácido lático a partir de açúcares.

b. Efeitos do aditivo sobre a silagem: - aumentar velocidade de fermentação; - inibir a ação de enzimas da planta (proteases); - reduzir o crescimento de microorganismos e indesejáveis (Closrtidium e Enterobactérias); - reduzir a estabilidade aeróbica; - aumentar a recuperação da matéria seca.

c. Ensaios comprobatórios do efeito do aditivo bacteriano em silagens (Quadros 8 e 9).

Quadro 8 - Ensaios publicados (1990-1995) comprobatórios do efeito de aditivo bacteriano em silagem*

Parâmetros da silagem % Ensaios positivos Observações
PH 63 Efeito principal em gramíneas
Relação: ácido lático/acético 63 Efeito principal em gramíneas
Redução de amônia 65 Efeito principal em gramíneas
Redução de perdas de MS 37 Efeito principal em gramíneas
Menor estabilidade aeróbica 28 Efeito principal em gramíneas
Maior digestibilidade da MS 29 Efeito principal gramínea (aumento 6% na digestibilidade)
* MUCK e KUNG, 1997.

Quadro 9 - Ensaios publicados (1990-1995) comprobatórios do efeito do aditivo bacteriano sobre o valor nutritivo da silagem*.

Item Avaliações
Estudos com respostas Digestibilidade Consumo Produção de Leite Ganho em Peso
69% (13) 28% (67) 47% (36) 53% (15)
* KUNG e MUCK, 1997

d. Fatores que afetam a atividade dos inoculantes (PITT, 1990): - baixo teor de açucares solúveis (< 18%); - teor de matéria seca da forragem (< 18%); - forma de aplicação (líquida); - qualidade da água usada (> 1ppm de Cl); - espécie forrageira (específicos); - quantidade aplicada (90 bilhões de UFC/ton forragem).

5. Aditivos - Fontes de carboidratos solúveis:

a. Polpa de laranja (cítrica) fresca (10%).

Alto teor de CHO (40% na MS). Resultado satisfatório com melhoramento na qualidade da silagem (FARIA et al, 1972)

b. Cana-de-açúcar: - 30% resultados favoráveis (de FARIA e PEIXOTO, 1974); - 30% resultados indiferentes (ALMEIDA et al, 1986).

c. Melaço de cana-de-açúcar: - 3% resultados favoráveis (SILVEIRA et al, 1973); - 3% dependentes do teor MS da forragem (TOSI, 1972).

d. Milho e mandioca.

Ambos não favoráveis como fontes de carboidratos. As bactérias láticas não usam este polissacarídeo como fonte de energia.

6. Aditivos - Inibidores de fermentação:

São compostos genéricos que, além de reduzirem o pH da silagem tem efeito bactericida ou bacteriostático.

São os ácidos minerais e seus sais e os ácidos orgânicos e seus sais:

  • Metabissulfito de sódio;
  • Pirossulfito de sódio;
  • Ácido fórmico;
  • Formaldeído.

Dos ácidos orgânicos utilizados na ensilagem de forragens, o ácido fórmico é o mais empregado.A quantidade empregada varia (LAVEZZO, 1981) 2,2l a 3,3l/t de forragem verde de ácido fórmico a 85%. O formol, comercializado em solução de 37 a 45% de formaldeído possui duas propriedades que o recomendam como aditivo: é bacteriostática e insolubilizante de proteínas. Graças a este efeito as proteínas não são degradadas também no rúmen e são absorvidas no intestino delgado.Os níveis recomendados variam de 1,3g de a 8,0g de formaldeído/100g de proteína bruta da forragem. Valores como 8,0g provocam depressão no consumo e na digestibilidade da MS. Níveis ideais estariam em torno de 3 a 5g/100g de PB.

BOIN (1975) ensilou o capim elefante cv. Napier com 0,4, 0,6 e 0,8% de formol (38% de formaldeído) e observou baixa fermentação do material ensilado quando verificou os níveis de ácidos orgânicos formados e constatou esterilização da massa ensilada quando usou nível 0,8%.

A solução de "Viher" que é constituída de 70% de formol (40% de formaldeído) e 26% de ácido fórmico (85% de pureza) e 4% de água é muito usada na Europa para proteger a proteína da forragem ensilada e assegurar um bom consumo de MS. Trabalhos feitos com 0,2% de solução de "Viher" mostram melhoria na qualidade da silagem de gramínea tropical na digestibilidade e no consumo de MS.

Trabalhos feitos com cloreto de sódio não tiveram efeitos quando a MS era de 20% na forragem de capim. Foram usadas quantidades de até 1kg/100kg de forragem verde sem nenhum resultado positivo. Portanto os autores concluíram que o NaCl neste nível não teve ação inibitória na fermentação.

7. Aditivos - Nutrientes:

  • Uréia;
  • Amônia;
  • Biureto;
  • Minerais.

URÉIA - Vários trabalhos relatam o efeito da uréia na ensilagem de gramínea, ora elevando o teor de proteína da silagem (LAVEZZO, 1990), ora elevando o pH, em doses superiores a 0,75%, (SINGH e PANDITA, 1984), ora elevando o teor de ácido acético (COLENBRANDER et. al., 1971), ora elevando a capacidade de tamponante da massa ensilada (SHIRLEY et. al., 1972), ora não interferindo na produção de ácido lático (VILELA e WILKINSON, 1987), ora aumentando o consumo de matéria seca (VILELA e WILKINSON, 1987). VILELA et. al (1990) estudaram o efeito da adição da uréia (0, 1,8, 3,5 e 5,2% na MS) na forragem emurchecida de capim elefante Mineiro (Quadro 10).

Quadro 10 - Efeito de níveis de uréia sobre o valor nutritivo de silagens de capim elefante emurchecido*.

MS Níveis de Uréia e Parâmetros
0 1,7% 3,4% 5,2%
(%) Digestibilidade da MS
38,6 52,24 54,96 44,07 41,15
43,2 50,96 55,26 53,84 60,63
  Consumo de Matéria Seca**
38,6 43,37 35 29,87 24,63
43,2 40,34 37,97 31 29,30
*VILELA et al., 1990. **Consumo: g/UTM.

Uréia hidrolizada. Amônia rompe ligações ésteres entre lignina, celulose e hemicelulose e outros carboidratos com lignina. Está em função da matéria seca da forragem ensilada (VILELA, 1970).

VIII. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procurou-se abordar, de modo abrangente, os fatores que levam a gramínea tropical (capim) a tornar uma forragem mais atrativa para a confecção de silagens e ressaltando entre as gramíneas, as mais produtivas e com características nutricionais adequadas. Foi também comentado um dos principais fatores que limita a produção de silagem deste material, que é o teor de matéria seca, quando a planta apresenta seu maior valor nutritivo.

Da literatura consultada, pode-se concluir que não existe uma técnica única e consensual que possa ser generalizada e preconizada como sendo a mais correta. Acredita-se que a aplicação da técnica do emurchecimento da forragem, mediante o uso de equipamentos modernos de corte e colheita, ela torna-se padrão para ensilagem de gramínea tropical, que aliada a outras incrementam a qualidade e o valor nutritivo das silagens.

IX. LITERATURA CONSULTADA

ALCANTARA, P.B., ALCANTARA, V.B.G., ALMEIDA, J.E. Estudo de 25 prováveis variedades de capim elefante. Bol.Ind.An., Nova Odessa, v.15, p.193-191. 1986.

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