SUSTENTABILIDADE ECONÔMICA DA ADUBAÇÃO DE MANUTENÇÃO COM FÓSFORO E POTÁSSIO EM PASTAGEM CONSORCIADA DE PANICUM MAXIMUM E LEGUMINOSAS SOB PASTEJO E SEU IMPACTO NA CADEIA PRODUTIVA DE CARNE BOVINA.

Herbert Vilela 1,
Fabiano Alvim Barbosa 2,
Duarte Vilela 3,
Francisco Veriano da Silva Júnior 4

  1. Engenheiro Agrônomo. Professor Visitante do Departamento de Produção Animal da Universidade Federal de Uberlândia. BeloHorizonte/MG. Brasil. vilela@agronomia.com.br
  2. Médico Veterinário. Mestrando em Zootencia - Esc. Veterinária/UFMG - fabianoalvim@unb.br
  3. Engenheiro Agrônomo. Pesquisador da EMBRAPA - CNPGL. Juiz de Fora/MG. Brasil. vilela@cnpgl.embrapa.br
  4. Engenheiro Agrônomo. Mestrando em Zootencia - Esc. Veterinária/UFMG. fveriano@yahoo.com.br

PROPOSTA DE TRABALHO

A área de pastagem, com espécies cultivadas no Brasil, está em torno de 115 milhões de hectares, enquanto a área com pastagem nativa é de 144 milhões. Estas áreas abrigam cerca 167 milhões de cabeças de bovinos o que proporciona uma taxa de lotação de 0,64 cabeças por hectare e produção de cerca de 7 milhões de toneladas de equivalente carcaça (Anualpec, 2003). A maior concentração dos cerrados localiza-se nas Regiões Fisiográficas Sudeste e Centro Oeste. Nestas Regiões, concentram-se 77,3% dos cerrados e 41,7% do rebanho bovino nacional (Saturnino et al., 1976).

A degradação das pastagens é um dos maiores problemas da pecuária brasileira, por ser esta desenvolvida basicamente a pasto, afetando diretamente a sustentabilidade do sistema produtivo. Considerando a fase de recria e engorda de bovinos, a produtividade de carne de uma pastagem degradada está em torno de 2@/ha/ano, enquanto em uma pastagem em bom estado pode atingir, em média, 16@/ha/ano (Kichel & Kichel, 2002). Euclides et al. (1997) estudaram a recuperação de pastagens de Panicum maximum com aplicação de calcário, fósforo e potássio durante a formação, mas sem adubação de manutenção. Os resultados mostraram que a produtividade caiu do primeiro para o terceiro ano em sistema de pastejo contínuo. Essa redução de produtividade se deve ao fato de que não foi realizada adubação de manutenção (Kichel & Kichel, 2002). Vilela et al. (1980) trabalhando com novilhos em pastagens de Panicum maximum com adubação de 100 kg de N/ha/ano e outra de Panicum maximum com Glycine javanica cv. Tinaroo e Macroptilium artropurpureum cv. Siratro, encontraram rendimentos de peso vivo /ano de 510 e 521kg (primeiro ano), 754 e 540kg (terceiro ano) respectivamente.

A estrutura de participação dos diversos componentes do agronegócio brasileiro, em termos de valores e taxas percentuais, mostra que em 2001 o PIB do agronegócio total atingiu R$ 344.954,5 milhões representando 27,06% do PIB do Brasil, enquanto que o PIB da pecuária com R$ 106.917,3 milhões, representa 8,39% do PIB do Brasil (CNA/CEPEA-USP, 2002).

Nas estimativas do projeto CNA/CEPEA-USP com relação ao agronegócio do Brasil, o valor total do PIB do agronegócio em cada um dos seus complexos é composto em:

  • Insumos;
  • O próprio setor;
  • Processamento; e
  • Distribuição e serviços.

Com relação a estes quatros componentes tem-se que no complexo do agronegócio da pecuária os percentuais de participação registrados são 6,85%, 41,96%, 17,11% e 34,35%, respectivamente. Especificamente para a pecuária, o próprio setor é que possui uma maior participação no PIB (41,96%) (CNA/CEPEA-USP, 2002). O PIB da agropecuária tem efeito multiplicador nos demais setores da economia brasileira. Cada R$ 1,00 de renda obtida na atividade primária da agropecuária consegue gerar R$ 2,40 na indústria de insumos, na indústria de processamento de produtos agropecuários e nos serviços agregados a essas atividades, o que representa uma multiplicação de renda de 140% (CNA, 2002).

As exportações brasileiras de carne bovina no ano de 2002 foram de 930 mil toneladas de equivalente carcaça obtendo um valor de exportação de R$ 3.600 milhões (Anualpec, 2003).

A proposta de trabalho está relacionada ao impacto da participação das exportações de carne bovina no PIB nacional e fundamentada na economicidade da adubação de manutenção de fósforo e potássio em pastagens de gramíneas consorciadas com leguminosas em um sistema de pecuária bovina de corte. Portanto, o que se propõe é a criação de um Programa Nacional de Sustentabilidade de Pastagens Cultivadas (com leguminosas), mediante o uso criterioso porém sistemático de Fósforo e Potássio, como adubação de manutenção.

METODOLOGIA

O trabalho foi conduzido na Região do Alto São Francisco de MG, em pastagem consorciada de Panicum maximum Jacq, (cv Makueni) com Stylosanthes guianensis (estilosantes) e com Glycine wightii (soja perene). A pastagem foi estabelecida em out/90 após a derrubada da vegetação de cerrado. Foram aplicados 2.500kg/ha de calcário dolomítico, 100kg/ha de P2O5 na forma de termofosfato e 60kg/ha de K2O na forma de cloreto de potássio. No plantio usou-se 15kg/ha de semente, de capim Panicum maximum e 6,0kg/ha de uma mistura de leguminosas estilosantes e soja perene em proporções iguais.

Nos meses de janeiro, dos anos subseqüentes ao da formação da pastagem procedeu-se a adubação anual de manutenção, que correspondeu aos tratamentos: T1 - níveis zero de fósforo e de potássio, T2 - níveis 20kg de P2O5/ha e de 20kg K2O/ha, T3 - níveis 40kg de P2O5/ha e 40kg de K2O/ha, aplicados nas formas de superfosfato simples e cloreto de potássio, respectivamente.

As análises estatísticas dos parâmetros avaliados foram realizadas de acordo com o delineamento experimental de blocos ao acaso, com os tratamentos distribuídos em parcelas que eram constituídas pelos níveis de fósforo e potássio usados. Para a cobertura vegetal, fez-se a análise de variância, transformando-se previamente os dados em arco seno, raiz quadrada da porcentagem.

JUSTIFICATIVAS

O nível de adubação de fósforo e potássio aumentou a disponibilidade de forragem disponível com maior partcipação das leguminosas nas pastagens além de menor porcentagem de ervas e arbustos e cobertura morta que influenciaram no aumento da produtividade. A adubação aumentou a área de solo coberta pela forrageira e, conseqüentemente a forragem disponível por área. Os níveis de adubação usados modificaram a cobertura vegetal das pastagens ao longo dos anos. A leguminosa estilosantes teve maior participação na cobertura do que a soja perene. Este resultado pode ser devido a melhor adaptação do estilosantes ao nível de adubação usado.

As adubações usadas mostraram efeitos consistentes sobre os rendimentos em peso vivo obtidos ao longo dos anos (Tabela 1). Observa-se que os níveis 20kg/ha de P2O5 e de K2O tendem a manter os rendimentos em peso vivo em determinado patamar, os níveis 40kg/ha de P2O5 e de K2O a aumentá-los e os níveis zero a decrescê-los em relação aos obtidos inicialmente (Tabela 1). O maior rendimento em peso vivo por ano obtido neste trabalho (560kg/ha) foi superior aos obtidos por Zimmer & Euclides (1997), Vilela et al. (1978) e Euclides et al. (1998).

Observa-se que a sustentabilidade de pastagem cultivada em cerrado é precária, requerendo atenção especial às causas de degradação das pastagens principalmente, a que se refere às práticas culturais de adubação de manutenção. Verifica-se que a produção de carne por hectare por ano, ao nono ano de sua utilização, sem nenhuma adubação de manutenção, é igual à produção de carne de uma pastagem nativa (Vilela, 1978).

Tabela 1 - Taxa de lotação e rendimento em peso vivo de pastagem de Panicum com leguminosas submetida a três níveis de adubação de fósforo e potássio, durante nove anos.

Ano

Adubação de Manutenção Kg P2O5 e K2O / ha/ano

Taxa de Lotação UA / ha

Ganho de Peso Vivo Kg PV/ ha/ano

1 0 (T1) 1,01 299 eC
20 (T2) 1,20 369 dB
40 (T3) 1,45 376 dA
3 0 (T1) 0,73 170fC
20 (T2) 1,15 339 dB
40 (T3) 1,60 448 cA
6 0 (T1) 0,52 100 dC
20 (T2) 1,24 365 cB
40 (T3) 1,80 520 bA
9 0 (T1) 0,29 50 hC
20 (T2) 1,25 350 dB
40 (T3) 2,05 560 aA
Médias 0 (T1) 0,64 155 C
20 (T2) 1,21 363B
40 (T3) 1,73 476 A
Médias com letras maiúsculas, dentro do ano, seguidas por letras diferentes, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste de F.
Médias com letras minúsculas, dentro da coluna, seguidas por letras diferentes, diferem entre si (P < 0,05) pelo teste de F.

Barbosa et al. (2003) realizaram a avaliação econômica deste trabalho e encontraram que a adubação de manutenção de 40 kg de P2O5 e K2O por hectare por ano aumentou a produtividade ao longo dos anos com 23,44 e 34,14 @/ha/ano para o ano 1 e 9, respectivamente. O custo da arroba diminuiu, R$ 44,06 e 38,87 para o ano 1 e 9, respectivamente, pois a produtividade aumentou diluindo os custos totais. O T2 e o T3 obtiveram retorno do capital investido no Ano 7 e 6, respectivamente, tornando a atividade economicamente viável, isto é as receitas obtidas da atividade pagam os desembolsos, depreciações, juros de capital de 8% aa, além de retornar o investimento inicial aplicado. O T3 apresentou melhor resultado econômico com maior valor presente líquido e maior taxa interna de retorno.

Tomando por base os resultados obtidos neste trabalho pode-se obter uma lotação de 1,73UA por hectare nas áreas de pastagens cultivadas, o que resultaria em, pelo menos, um suporte para 198.950.000 cabeças, em 115 milhões de hectares, significando um aumento de 19%. Considerando que este aumento da produção de carnes seja exportado, significa uma produção de 1.110 mil toneladas de equivalente carcaça gerando uma receita de R$ 4.290 milhões, e quando comparado aos dados do ano de 2002, propicia uma receita adicional direta de R$ 690 milhões e na cadeia produtiva de R$ 966 milhões.

CONCLUSÕES

Nas condições deste trabalho a adubação de manutenção mostrou-se importante a partir do segundo ano de utilização da pastagem.

O nível de 40kg de P2O5 e K2O por hectare pode aumentar a capacidade de suporte de pastagens para 1,73 UA/hectare com viabilidade econômica, propiciar uma receita adicional direta de R$ 690 milhões proveniente da exportação de carne bovina e na cadeia produtiva de R$ 966 milhões.

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